terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Carnaval 1998 - A BICA Comunistou


No sábado, 10 de janeiro de 1998, o poeta Simão Pessoa escreveu o seguinte texto no Amazonas em Tempo:

Na última quinta-feira, uma comissão de notáveis da Banda Independente Confraria do Armando (BICA) esteve reunida com a alta direção da cervejaria Antarctica e, depois de cinco horas de muita conversa, conseguiu um acordo sem precedentes na história do carnaval amazonense: a cervejaria vai financiar integralmente o desfile dos biqueiros no Sábado Magro, dia 14 de fevereiro.

A carta de intenções foi assinada pelo diretor de Marketing da empresa, Allan Kardec, e pelo presidente da OAB, Alberto Simonetti, representando a BICA.

Segundo o juiz Jomar Fernandes, da diretoria da banda, o acordo é vantajoso para ambas as partes.

– A Antarctica vai fornecer 5 mil grades de cervejas a preço de custo, que serão vendidas no Bar do Armando pelo preço praticado no mercado, e o lucro apurado será investido no nosso desfile, ou seja, na confecção de camisas, mortalhas, mamulengos, pagamento de músicos, aluguel de trios elétricos e por aí afora –, explicou.

O papel dos biqueiros será detonar essas 5 mil grades no menor tempo possível.

Os ensaios oficiais da banda começaram na mesma noite em que foi firmado o histórico acordo, com a presença de vários diretores da Antarctica.

A parte musical ficou por conta do grupo Sosiforsamba, do Morro da Liberdade, e da banda Metal Soldado, especializada em marchinhas carnavalescas.

Cerca de duzentas pessoas prestigiaram o evento consumindo, segundo cálculos extra-oficiais, perto de 50 grades de “louras”.

Pelas contas otimistas do promotor Francisco Cruz, presidente da BICA, estão faltando apenas 4.950 grades para serem detonadas.

Impossibilitado de dedilhar o violão (se acidentou com uma faca de cozinha e perdeu o movimento em três dedos da mão esquerda), o compositor oficial da banda, Afonso Toscano, suspendeu as chuteiras e entregou a tarefa ao músico Celito Chaves.

A troca de guardas acabou sobrando para o atual secretário de Interior e Justiça, Félix Valois.

Comunista desde o jardim da infância, a aproximação do mesmo com o governador Amazonino Mendes acabou gerando uma série de qüiproquós entre os biqueiros, radiografados na marchinha “A BICA Comunistou”.

– Eu era adversário político do governador, mas nunca escondi de ninguém a minha condição de seu amigo pessoal –, explicou Félix Valois. “O fato de ex-adversários políticos dele estarem fazendo parte do seu secretariado prova que o Amazonino quer o melhor para o nosso Estado e que suas teses convergem para a meritocracia, acercando-se de pessoas de reconhecido talento e competência. Quem fizer outra leitura desse quadro que não seja esse estará completamente equivocado”.

Outro que compartilha da mesma visão é o advogado Alberto Simonetti.

– O caboco está fazendo um governo de conciliação, de verdadeiro estadista. Quem é competente, está com ele. Quem não é, vai continuar chupando o dedo! –, ironiza. “Mas como a BICA não é uma banda chapa branca e só presta contas ao Rei Momo, a letra mexe com todo mundo. É assim que funciona a democracia carnavalesca”.

Os ensaios da banda vão acontecer todas as quintas-feiras, no Bar do Armando, a partir das 19h, sempre com várias participações especiais.

No próximo dia 15, além do Sosiforsamba e do Metal Soldado, o grupo Dente de Dragão dará uma canja especial.

No dia 22, será a vez dos grupos ProÁlcool, de Mário Toledo e Ary de Castro Filho, e Raízes do Samba, de Edu do Banjo, Caio do Cavaco, Casqueta, Pajé e companhia.

No dia 29, a bateria do GRES Andanças de Ciganos e Neguinho da Beija-Flor.

A programação do mês de fevereiro ainda não foi divulgada.


Chicão Cruz e Jomar Fernandes acertando os detalhes do desfile

No domingo, 8 de fevereiro, a coluna “Aduana”, do jornal A Crítica, editada pelo jornalista Rogério Pina, publicou as seguintes notas:

Memória da Folia

Pegando carona na temporada de folia, o Centro Cultural Palácio Rio Negro inaugura no próximo dia 17 a exposição Carnavália, com fotografias dos freges locais desde 1905 até a década de 80. A Banda da BICA e o Mocidade Clube ganharão homenagens especiais na mostra organizada por Abrahim Baze e que terá textos de Simão Pessoa. Para montar a exposição, foi imprescindível o apoio – através de seus acervos fotográficos – do IGHA, Atlético Rio Negro Clube e Nacional Futebol Clube.

High tech

Chiquérrima mesmo é a Banda da BICA.

Durante toda esta semana terá chamadas para a folia no painel eletrônico da Eletromídia, na Paraíba próximo à Efigênio Sales.


Edu do Banjo, Simão Pessoa, Felix Valois, Chicão Cruz e Deocleciano Souza

Na quinta-feira, dia 12 de fevereiro, a coluna “Sim & Não”, do jornal A Crítica, publicou a seguinte nota:

Racha

A banda da BICA vai unida, como sempre, ao seu ensaio final, mas o samba vai soar destoante. O tema oficial, “A BICA comunistou”, teria sido deturpado em sua execução, na tentativa de institucionalizar a rebeldia da banda. Por causa disso, o chamado Grupo da Resistência, integrada por militantes históricos da banda, vai desfilar com um samba de protesto: “Eu não me aliancei”.


Armando mostrando a camisa da chamada Ala da Resistência, também vendida no boteco

No sábado, 14 de fevereiro, a coluna “Sim & Não”, do jornal A Crítica publicou a seguinte nota:

A BICA

A festa carnavalesca de hoje na praça São Sebastião, promovida pela banda da BICA, deve reunir pelo menos 30 mil pessoas, conforme estimativa dos organizadores, baseados em números de outros anos. Levando em conta que hoje é dia também da festa de outras bandas, é possível que pelo menos 60 mil pessoas estejam com seus corações e mentes voltados para o carnaval de rua amazonense.


Manuel Batera, Jomar Fernandes, Edu do Banjo, Simão Pessoa e Durango Duarte

No sábado, 14 de fevereiro, o jornalista Orlando Farias, de A Crítica, escreveu o seguinte texto:

O Sábado Magro de carnaval coincide sempre, em Manaus, com uma emoção desopilante que se chama Banda Independente Confraria do Armando. Tendo como palco a histórica a Rua 10 de Julho (homenagem à libertação dos escravos), ao lado do charme do Teatro Amazonas e da soberana Praça São Sebastião (cenário de muitas lutas democráticas), a BICA pede passagem no dia de hoje para realizar mais um carnaval da irreverência.

Em 98, a BICA literalmente “comunistou”: o samba-enredo é uma ironia ao comunista Félix Valois Coelho, 54, adversário ferrenho do governador Amazonino Mendes até março do ano passado, quando se aliançou.

– Se uma pessoa não tem capacidade de suportar uma brincadeira de época carnavalesca, é porque não tem têmpera de democrata! –, diz Valois, que até admite ser chamado de velho comunista. “Não acredito que alguém possa me chamar é de comunista velho”, brinca.

Se é fácil saber que a BICA comunistou em 98, é mais palpável o fato de que ela ficou mais atraente. Afinal, hoje a banda terá dois camarotes especiais.

Um deles, ao lado do Bar do Armando, é uma homenagem à crença de que a Seleção Brasileira será pentacampeã da Copa do Mundo, em junho.

Haverá também um palco exclusivo para os artistas da banda e dois trios elétricos para tocar marchinhas variadas de carnaval.

Houve tanta preocupação em termos de planejamento da festa, segundo um dos seus coordenadores, o promotor publico Francisco Cruz, que está sendo impossível prever quantas grades de cerveja serão consumidas no dia de hoje.

– Deverão ser vendidas seis mil caixas de cerveja! –, diz Cruz, lembrando que isso é o dobro do ano passado.

Trata-se também da única banda que mantém a tradição de não cobrar absolutamente um tostão dos barraqueiros.

– A BICA é, de fato e de direito, um evento sem fins lucrativos! –, diz outro coordenador, o juiz-corregedor Jomar Fernandes. “O fim máximo da banda é realizar sempre um carnaval irreverente, com os traços culturalmente fisionômicos da cidade”, resume.

Para não fugir à regra, a polêmica mais marcante na trajetória da banda em 98 foi em torno do próprio samba-enredo, que uma ala considerou excessivamente “chapa branca” (institucionalizado), além de a camiseta oficial ter incluído a figura do governador Amazonino Mendes e o “A” estilizado da marca do governo.

Esse grupo, que se intitula “Resistência da BICA”, lançou uma camiseta alternativa, com um lema sugestivo: “Eu não me aliancei”.

Apesar da discordância, o samba-enredo emplacou, a julgar pelas milhares de fitas cassete distribuídas pela cidade. Quanto à camiseta, ela está fazendo tanto sucesso, segundo o patrono da banda, o comerciante Armando Soares, que até a policia foi acionada para prender pessoas envolvidas com a falsificação das mesmas.

E por falar na polícia, Davi Almeida, o diretor que cuidava ontem, junto com Simão Pessoa, da segurança dos biqueiros, garante que a BICA será novamente a banda mais policiada, no bom sentido.

– Nunca registramos uma briga e nem vamos registrar, porque todo biqueiro é um cara muito consciente da brincadeira em que está envolvido! –, decreta Davi.


A concentração de biqueiros ocupando toda a Praça São Sebastião

Também no sábado magro, dia 14 de fevereiro, o jornalista Mário Adolfo escreveu o texto “Anarquistas graças à BICA”, no Amazonas em Tempo:

O centro de Manaus viverá um sábado de agitação, bom humor e escracho a partir do meio-dia de hoje, quando a Banda Independente Confraria do Armando (BICA) – a mais tradicional e polêmica banda da cidade – ganhar as ruas para brincar o seu 11.º carnaval de rua.

Como é de praxe, os biqueiros trazem este ano um enredo que tem todos os ingredientes para polemizar a festa: um homem público, uma autoridade e um motivo político. “O Velho Comunista Se Aliançou”, título do tema, é uma sátira à inesperada aliança entre o governador Amazonino Mendes (PFL) e o advogado Félix Valois, comunista convicto, que até poucos meses era um dos ferrenhos opositores do governador.

A BICA foi a segunda banda criada em Manaus. A primeira foi a do Mandy’s Bar, do Hotel Amazonas. Como a primeirona aposentou o estandarte, a BICA ostenta hoje o título de pioneira da cidade.

Seus organizadores também vão exigir um registro no Guiness Book, o livro dos recordes, por manter em suas fileiras a mais velha porta-bandeira de todo o carnaval: Petronila, que aos 78 anos desfila ostentando o estandarte em forma de cueca, cebola e mortadela.

Embora os cardiologistas insistam para que a veneranda senhora brinque o carnaval no carro de som, ela prefere ir a pé e chega a se irritar quando alguém se preocupa com o longo percurso.

– Meu filho, no dia em que eu não puder mais entrar na BICA eu me aposento!

Pra variar, os ensaios da banda, realizados às quinta-feiras, foram marcados pela polêmica. A primeira delas envolveu uma rede de falsificadores que andaram pirateando as camisetas da BICA para vender no câmbio negro.

– Vamos acionar a Procuradoria-Geral da República porque violação de direitos autorais é crime federal! –, anunciou o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), secção Amazonas, Alberto Simonetti, que também faz parte da diretoria da BICA.

Mas não é só. No auge dos ensaios, a diretoria da BICA descobriu uma ala dissidente formada por antigos fundadores da banda que se recusam a colocar a camisa com a caricatura do governador Amazonino ao lado do Valois. “Se hay gobierno, yo soy contra!”, rebatem os xilitas, que mandaram confeccionar uma camisa exclusiva para eles com a cara de Mao Tsé-tung, Che Guevara e Lênin. No dia do ensaio geral, eles se recusaram a brindar com o velho comunista Valois.

Além dos ensaios, que só acabavam às 4h30 da madrugada, um terceiro problema tem tirado o sono da diretoria da BICA.

Obedecendo há 11 anos o percurso das ruas 10 de Julho, Getúlio Vargas, Sete de Setembro, Eduardo Ribeiro e novamente Rua 10 de Julho, a BICA está sendo obrigada, desde o ano passado, a evitar a Eduardo Ribeiro porque a Banda da Difusora resolveu transferir seu carnaval também para o sábado magro, no meio da Eduardo Ribeiro, fechando a passagem para o desfile da pioneira.

Este ano, uma comitiva da BICA vai tentar, através do diálogo, convencer os diretores da rádio, Josué Filho e Maria da Fé, a confraternizarem com a BICA num encontro histórico e abrir passagem para a anarquia passar.

– Será bem melhor para o bem da democracia e para a saúde de todos. A Rua Barroso tem uma ladeira que eu vou te contar! – suspira o publicitário e escritor Simão Pessoa.

Enquanto o qüiproquó não é resolvido, o juiz Jomar Fernandes e o promotor Francisco Cruz trabalham nos bastidores para tentar outorgar, pela Câmara Municipal, o título de Cidadão de Manaus para o português Armando Soares, que em 1970 armou seu boteco na Praça São Sebastião e de lá para cá vem aturando um bando de bêbados chatos:

– Se deram o título até para a Rosane Collor, porque não dão para o Armando, que é um pouquinho mais inteligente? – cobra Francisco Cruz.

O maior pepino para a diretoria da BICA resolver foi a questão da segurança. O item passou a preocupar o Poliburo biqueiro depois da onda de assaltos que assolou a Banda da Calçada Alta, onde até a coroa do rei Momo desapareceu misteriosamente.

O secretário Klinger Costa já havia prometido que não ia liberar policiamento para “festa de comunista”, mas quando soube que o único comunista era um secretário de Estado, resolveu atender às prerrogativas e montou um esquema com 380 policiais do Batalhão de Choque, 99 duplas de Cosme & Damião, 106 policiais femininas e 52 Manduquinhas.

– Podem brincar tranqüilos. O único assalto que vai ter aqui é no preço da cerveja do Armando! – tranqüilizou o jornalista Deocleciano Souza, o “general da banda”.

Os biqueiros prometem bater o recorde de público em bandas de carnavais, que já é da própria BICA.


O criador e a criatura: Paulo Mamulengo e o boneco do Armando

Fazendo uma espécie de box na matéria de Mário Adolfo, o poeta Simão Pessoa escreveu o texto “O profano e o sagrado”, abordando a história da banda:

Localizado na Praça São Sebastião, em uma casa que pertence aos Padres Capuchinhos, da Igreja de São Sebastião, o Bar do Armando é a tradução perfeita daqueles mistérios gozosos tacitamente equilibrados entre o sagrado e o profano.

De março a novembro, o bar se transforma em ponto de encontro permanente de boêmios, escritores, poetas, músicos e artistas plásticos, servindo como palco de manifestações culturais.

De novembro a fevereiro, ele se entrega às luxúrias implícitas do reinado de Momo, onde as marchinhas carnavalescas e as tentações da carne sepultam qualquer possibilidade de conversa mais ou menos séria.

Nesse sábado, 14, a partir das 17h, quando a BICA (Banda Independente Confraria do Armando) desfilar pelas ruas do centro da cidade pela 11ª vez, a transição do profano para o sagrado se concretiza, iniciando um novo ciclo de elucubrações filosófico-etílico-existencialistas, que deve atingir seu ponto máximo de ebulição no próximo dai 28, data de aniversário do Armando. Até lá, tudo pode acontecer.

A cervejaria Antarctica, que está financiando o desfile, vai construir dosi camarotes para seus convidados.

A BICA também vai ter um camarote exclusivo para a diretoria com direito a bufê regional, mâitre e garçons.

A banda foi fundada no início de 1987 e tinha como único objetivo reviver o autêntico carnaval de rua que, na época, estava confinado na avenida Djalma Batista (ex-João Alfredo), no Vieralves.

O único cordão carnavalesco a agitar as ruas do centro da cidade, no sábado gordo, era a Banda do Mandy’s Bar, fundada cinco anos antes pelos boêmios Antenor Amazonas e Ademar Brito.

Por ter como local de concentração o bar do Hotel Amazonas, ponto de encontro de socialites, colunistas e emergentes, em geral, a Banda do Mandy’s Bar nunca conseguiu se transformar em uma manifestação genuinamente popular.

Seus frequentadores eram quase todos oriundos das classes sociais mais abastadas e, mesmo no auge da popularidade, a banda não conseguia empolgar mais de 2 mil foliões.

A BICA surgiu, assim, para ocupar essa faixa mais popular da manifestação e hoje seus desfiles, sempre realizados no sábado magro, arrastam, em média, mais de 10 mil pessoas.

Na reunião histórica de fundação da BICA estavam presentes os compositores Celito Chaves e Afonso Toscano, a engenheira civil Heloísa Chaves, o jornalista Deocleciano Souza, o advogado Francisco Cruz, o professor Mário Jorge Buriti e o músico Manuelzinho Batera.

Depois, dramaticamente, dada a urgência de levantar grana para colocar o bloco na rua, os demais frequentadores do bar assinaram o Livro de Ouro na condição de fundadores, entre eles, Mário Adolfo, Eduardo Gomes, Carlos Dias, Inácio Oliveira, Orlando Farias, Isaac Amorim, Jorge palheta, Arnaldo Garcez, Aldisio Filgueiras, Marco Gomes, Simão Pessoa, Amecy Souza, Rosendo Lima, Rogelio Casado, Nestor nascimento, Ary de Castro Filho, Felix valois, Jorge Álvaro, Jomar Fernandes, Sérgio Litaiff, Lino Chíxaro, José de Anchieta, José Luiz Klein, Américo Madrugada, Anselmo Chíxaro, Guto Rodrigues e Torrinho.

A primeira marchinha da banda era bastante ingênua: “Na Banda Independente Confraria do Armando/ Tá todo mundo dando/ Tá todo mundo dando/Dano alegria para esse pessoal/ Qu quer fazer o verdadeiro carnaval/ Não tem Baile de Gala/ Não tem Baile da Chica/ Vem entrar na BICA/ Vem entrar na BICA”.

Como rainha da banda foi escolhida a septuagenária Petronila. O porta-estandarte ficou com o bancário aposentado Cancela. A fantasia era uma cueca samba-canção.

O desfile pelas ruas do centro, entretanto, não conseguiu mobilizar mais de quinhentas pessoas, mas os organizadores consideraram um verdadeiro sucesso.

No ano seguinte, a BICA assumiu aquilo que é a sua principal característica até hoje: letra de marcha-enredo impregnada de ironia cáustica e dessacralização dos acontecimentos políticos, numa postura agressiva e provocadora. Deu certo.

Seu segundo desfile atraiu mais de 5 mil pessoas e, graças a essa fórmula, a banda se transformou na mais conhecida de Manaus, servindo de exemplo para outras bandas se organizarem, como a Bhaixa da Hégua, Calçada Alta, Lobão, Cavalo de Aço, Cinco Estrelas, Cuião Roxo e Ciuu-Cuiú.

Em 1995, a BICA protagonizou um episódio elucidativo para a liberdade de expressão garantida, em tese, pela constituição federal.

Ao ironizar as fraudes supostamente ocorridas nas eleições para o Governo do Estado, em 1994, a banda teve sua saída embargada pelo então presidente do TRE, desembargador Lafayette Vieira.

A sociedade se mobilizou em torno da banda, a mídia explorou o assunto à exaustão e, graças a negociações conduzidas peal OAB, o desembargador voltou atrás, permitindo o desfile da BICA.

O episódio atraiu para o desfile mais de 10 mil foliões, verdadeiro recorde de público, e foi destaque nos principais jornais do país.

Entre as inovações que a BICA introduziu no carnaval de rua estão as figuras dos “bonecos mamulengos”, armações de quase três metros de altura, retratando personalidades ligadas ao Bar do Armando, todas confeccionadas pelo artesão Paulo Mamulengo.

A primeira figura homenageada, obviamente, foi o comerciante Armando Soares. Depois vieram os bonecos da Petronila, musa da banda, da Celeste Pereira, uma artista cênica precocemente falecida, e do Frei Fulgêncio, pároco da Igreja de São Sebastião.

Para o desfile deste ano estão previstos os bonecos do Secretário de Justiça Felix valois, que é o tema do carnaval, e de dona Lourdes, mulher do Armando.

O Velho Comunista se Aliançou

Autores: Anthístenes Pinto, padre Nonato Pinheiro e Silvério Tundis
Médium: Celito Chaves

Sem lari lari e nem com muita grana
Vendo meu voto pra esse teu papo aranha
Porque a Lourdes disse o Armando confirmou
Que o velho comunista se aliançou
E hoje vai brincar na BICA
Com quem sempre criticou

Ele é o demônio, parece o diabo,
Só está faltando a zagaia e o rabo!
Quem vai dar?... Quem vai dar?...
Uma zagaia e o rabo pro Valois (bis)

Manaus terra boa e hospitaleira
De dia falta água e a luz a noite inteira
A Eletrocorte é a culpada do balanço
Se de dia molho o bico e à noite afogo o ganso
É caso de policia e até de detenção
Mas a chave da cadeia está no bolso do Chicão

Mas pra isso mudar, ô seu Jomar,
O Simonetti apontou a solução
Pedindo à comissão que faz concurso pra juiz
Vetar apadrinhado de cola na mão.


Jomar Fernandes e Afonso Toscano regendo a banda Demônios da Tasmânia

No domingo, 15 de fevereiro, o jornal A Crítica publicou a seguinte matéria:

Sempre irreverente e destacando a sátira política em seus enredos, a Banda Independente Confraria do Armando, a BICA, explorou este ano a aliança do “velho comunista”, numa referência ao biqueiro histórico Félix Valois, militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB) – hoje PPS –, que se “aliançou” ao governador Amazonino Mendes (PFL) ao aceitar o cargo de secretário estadual de Justiça e Cidadania.

Mas na avaliação de um dos organizadores da banda, o jornalista Orlando Farias, este ano a BICA acabou se institucionalizando e fazendo uma homenagem ao próprio governador.

– Por isso um grupo de biqueiros históricos criou um subtema negando a aliança como forma de resistência e para manter a tradição da banda que é ironizar os problemas da cidade e criticar com bom humor os políticos do Estado! –, explicou.

Por conta dessa dissidência, a banda saiu com duas camisas. Uma exibe o tema “A BICA comunistou”, com a charge mostrando Valois sendo cooptado pelo governo.

A outra, assinada pelo grupo da resistência, declara “Eu não me aliancei”.

Da BICA participam políticos como o ex-vereador Serafim Corrêa (PSB), que será candidato ao governo estadual pela Frente Ampla de Oposição.

O Bar do Armando também é freqüentado por jornalistas, advogados, artistas e boêmios.


Petronila recebe Felix Valois, o novo boneco da presepada

No mesmo domingo, 15 de fevereiro, a coluna “Aduana”, de A Crítica, publicou a seguinte nota, ou melhor, o seguinte puxão de orelha:

Impróprio:

A Banda da BICA pisou na bola no mesmo dia em que foi sancionada a lei ambiental brasileira – que inclui um importantíssimo artigo sobre poluição sonora. Na última quinta-feira, depois da pré-folia organizada na base da Praça São Sebastião, um trio elétrico percorreu várias ruas do centro antigo da cidade, incomodando meio mundo. O horário da atitude politicamente incorreta: 1h da manhã de sexta.


Dr. Santana, Rui de Carvalho, Conceição, Celito, Heloísa Chaves, Simão Pessoa, Flávio Lauria, Humberto Amorim e Felix Valois

Na terça-feira, 17 de fevereiro, o jornalista Mário Adolfo publicou no Amazonas em Tempo a seguinte matéria:

Um carnaval bem-humorado, democrático, sem violência e que reuniu perto de 35 mil pessoas. Esta poderia ser a síntese do desfile da Banda Independente Confraria do Armando (BICA), realizado sábado passado na Praça São Sebastião, reduto dos boêmios do Bar do Armando, que há 11 anos fundaram a banda mais irreverente de Manaus. O desfile estava programado para as 18h30, mas a partir do meio-dia o movimento já era intenso.

A fórmula de sucesso da BICA foi repetida mais uma vez. Polemizar para atrair a curiosidade dos foliões. Esta foi a idéia ao lançar o enredo “O Velho Comunista se Aliançou”, uma sátira à decisão do advogado Félix Valois de se aliar ao governador Amazonino Mendes, a quem fez oposição ferrenha através de artigos de jornais e nos palanques da política baré.

O próprio Valois, freqüentador do Bar do Armando, aderiu ao espírito despojado da BICA e participou da festa no palanque da diretoria, construído na frente de uma residência ao lado do bar. O advogado estava de camisa pólo vermelha com a inscrição BICA 98 bordada em amarelo.

Como Valois é secretário de Justiça e Cidadania, que controla o presídio estadual, a diretoria da BICA mandou confeccionar roupas de presidiários com o número 171 (artigo sobre estelionato, segundo o Código Penal), com direito à touca de meliante e tudo mais.

Os convidados só tinham acesso ao camarote se estivessem com a camisa vermelha com a inscrição “convidado”, nas costas, e o símbolo do Partido Comunista no peito, uma referência ao partido do advogado Valois, comunista convicto desde criancinha.

O camarote, que tinha até tapete e segurança na porta, deu o que falar:

– Elitizaram a BICA! – protestavam antigos fundadores que também não concordaram com um enredo que incluísse o governador e mandaram confeccionar uma camisa onde se lia “Eu não me aliancei”.

O carnaval da BICA mais parecia um grande teatro de comédia.

Dentro do bar, era impossível se chegar ao balcão, já que centenas de foliões dançavam a marchinha ao som da banda Metal Soldado.

No Largo de São Sebastião, os brincantes não sabiam se dançavam ao som de sambas de enredo, puxados pela bateria do GRES Sem Compromisso, ou aderiam ao axé-music que saía do som de um trio elétrico.

– Mas isso é para todo mundo ficar doido mais rápido! – ironizou o presidente da banda, Jomar Fernandes.

Também não faltaram os tradicionais banhos de talco e maisena, prática dos antigos carnavais revivida pela BICA.

Em torno do desfile da banda, um arsenal de vendedores ambulantes fez a sua festa, demonstrando que a economia informal é a grande saída como solução para o desemprego.

Vendia-se de “churrasquinho de gato” ao prato de sopa, passando pela cerveja, caipirinha, refrigerantes e aluguel de banheiros. Um xixizinho estava custando R$ 0,50 nos bares da redondeza.

O momento de maior trabalheira aconteceu na saída da banda, quando o trio elétrico que comandaria a folia estacionou na descida da Rua 10 de Julho enquanto dezenas de biqueiros corriam atrás do presidente, Jomar Fernandes, e do autor da marcha-enredo, compositor Celito Chaves, que desapareceram da área. O carro só começou a se movimentar depois que os dois apareceram.

A noite caía rápido e o céu começava a fechar, anunciando pancadas de chuva, quando a BICA, comandada pela banda Metal Soldado, começou a desfilar, sendo seguida por parte da multidão, enquanto que o restante ficou brincando em frente ao bar.

O único trecho da marcha que o povão decorou foi o refrão: “Quem vai dar/ Quem vai dar/ Uma zagaia e o rabo pro Valois?”

Nos desencontros da saída, a diretoria se esqueceu de dar os comandos para os bonecos gigantes – que se tornou uma tradição da banda –, se posicionarem na frente do desfile.

O resultado é que, pela primeira vez na história da BICA, as figuras cômicas representando o dono do bar, Armando, o homenageado Félix Valois e a rainha, Petronila, de 85 anos, ficaram fora do desfile.

Uma pena porque a boneca de dona Lourdes, mulher do Armando, foi uma das grandes novidades da festa.


Afonso Toscano marcando de perto o percussionista Tião da Praia

No dia 18 de fevereiro, a coluna “Sim & Não”, de A Crítica, publicava a seguinte nota:

Eletronorte

Objeto de crítica no samba-enredo da BICA, a Eletronorte brindou essa banda da cidade, na festa no sábado último, com um estranho blecaute, exatamente quando maior era a concentração de público, no inicio da noite. Com a escuridão, grande parte dos foliões retirou-se da Praça São Sebastião. Por causa disso, a BICA realiza um novo carnaval na sexta-feira, como protesto contra a empresa.

Também no dia 18 de fevereiro, a coluna “Aduana” de A Crítica, publicou a seguinte nota:

Cisão

Foi “inaugurada”, no último sábado, a primeira dissidência da Banda da BICA. No comando, Lúcio Carril, o jornalista Orlando Farias e o juiz Jomar Fernandes. Slogan: Eu não me aliancei.


Uma multidão foi conferir a aliança de Felix Valois com o mau menino


Edu do Banjo e Manuel Batera no palco principal


O empresário Arnaldo Botelho colocando um enfeite em Davi Almeida


Mário Adolfo e o historiador Luiz Maximino Corrêa tomando todas







Foi Bonita a Festa, Pá!


Ana Lúcia, Armando, Praciano, Dona Lourdes e Ana Cláudia, na Câmara Municipal de Manaus

No dia 15 de dezembro de 1998, o jornalista Mário Adolfo escreveu este texto no jornal Amazonas em Tempo, para saudar o mais novo manauense do Amazonas:

Português de Arganil, distrito de Coimbra, o comerciante Armando Dias Soares viu o seu trabalho coroado ontem, pela manhã, quando foi homenageado pela Câmara Municipal de Manaus, com a comenda Adolpho Valle, tributo de honra aos cidadãos que se destacaram na área cultural.

A iniciativa para homenagear Armando foi do vereador Francisco Praciano, do PT, mas ganhou a unanimidade de todos os partidos.

– Essa casa não é exatamente a responsável por essa homenagem. Nem os vereadores. Muito menos o 
vereador Praciano. Eu tão-somente tive a felicidade de traduzir e decodificar a homenagem justa feita pela sociedade manauara! –, disse o vereador Praciano, ao usar a tribuna no inicio da solenidade.

– Estou feliz por estar homenageando um homem cujo currículo é fácil de defender, mas difícil de conseguir. Estou homenageando o senhor Armando Soares cujo currículo poderia se resumir numa forma simples: trabalho, trabalho, trabalho! –, afirmou Praciano.

Armando Soares chegou à Câmara às 9h45 em companhia de sua mulher, Lourdes Soares e das filhas Ana Cláudia e Ana Lúcia.

Antes de o comerciante chegar, os freqüentadores do bar, jornalistas, juízes e artistas, já haviam colocado à porta da Câmara o boneco mamulengo que desfila à frente da BICA – Banda Independente da Confraria do Armando – , que há 12 anos sai no sábado magro de carnaval.

Além do vereador Praciano, que abriu a sessão, homenagearam Armando o vereador Messias Sampaio e o secretário de Justiça e Cidadania, Félix Valois, e o ex-vereador Serafim Corrêa, citado pela Mesa como um “vereador luso”.

Representando a classe de boêmios, intelectuais, artistas e jornalistas que freqüentam o bar, falou o jornalista e professor da Universidade do Amazonas Deocleciano Souza. O jornalista foi buscar inspiração no poeta português Fernando Pessoa para homenagear o filho de Arganil.

– Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa: “Navegar é preciso. Viver não é preciso.” Assim é Armando um verdadeiro argonauta, a comandar veladores em tormentas agitadas em vendavais de cervejas.

O presidente da Câmara, Bosco Saraiva, destacou que em 27 anos, Armando transformou o bar da Praça São Sebastião no maior espaço democrático para debater políticos. “Ali é permitido debater tudo, trocar qualquer tipo de idéias, seja de arte, cultura, política ou de jornalismo”.

O presidente da Câmara lembrou que as duas filhas de Armando, Ana Cláudia e Ana Lúcia, estavam se formando em Pedagogia e Letras, a “maior prova de que seus laços estavam fincados em Manaus”.

As galerias e o plenário ficaram lotados na homenagem ao português. Nas cadeiras da frente, podiam ser vistos, além da família de Armando, vários freqüentadores do bar.

A Mesa Diretora foi formada pelo ex-vereador Serafim Corrêa, os juízes Jomar Fernandes e Anselmo Chíxaro, o secretário de Justiça e Cidadania, Félix Valois, o subsecretário Francisco Cruz e o jornalista Mário Adolfo.

O secretário Félix Valois, que não estava no cerimonial, foi “intimado” a falar pelo presidente da Casa, Bosco Saraiva. “Ninguém poderia se privar de ouvir, nesta manhã, a palavra inteligente de Félix Valois”, convidou Saraiva.

Valois citou o poeta Luiz Vaz de Camões para homenagear o amigo. “O mar salgado muito do pranto deramado: Portugal. Aqui em Manaus, muito desse sal, do próprio Portugal, foi derramado pelos amazonenses”.

– No fundo o que marca, nos corações dos freqüentadores do Bar do Armando é a sua presença fraternal. Todos nós somos filhos e irmãos do Armando! –, disse Valois.

O vereador Messias Sampaio lembrou que a sua turma de Filosofia, integrada por nomes como o falecido professor Rosendo Lima, além de Amecy Souza e José Alfaia, foi uma das primeiras a freqüentar o Bar do Armando, quando ele ainda era na rua Monsenhor Coutinho.

Serafim Corrêa, descendente de portugueses, disse que a homenagem comovia muito seu coração. “Eu conversava com o jornalista Arlindo Porto sobre o problema de que Manaus aos poucos ia perdendo suas tradições. Esta homenagem da Câmara resgata um pouco dessas tradições”.

O jornalista Deocleciano Souza citou que nas duas mesas de madeiras, revestidas de alumínio, que ainda existem até hoje no Bar do Armando, passaram grandes nomes da arte, da literatura, da música, da poesia, do jornalismo, do direito e da política.

– Nos anos de chumbo da ditadura, a Mercearia Nossa Senhora de Nazaré (o nome comercial do bar), localizada no mais belo sítio histórico de Manaus, funcionava mesmo como mercearia, e era o único espaço que tínhamos para discutir as mazelas que os militares faziam com o povo brasileiro. Era o espaço que nós tínhamos no ambiente acadêmico! –, disse Deco.

No fim da homenagem, a Câmara suspendeu os trabalhos e todos os políticos, freqüentadores do bar e jornalistas, foram direto para o Bar do Armando, em meio à cerveja gelada, sanduba de pernil e “bola” de sardinha feita por dona Lourdes, transformaram a segunda-feira num feriado municipal: O Dia do Português.

Em seu discurso, Armando disse que saiu ainda jovem de sua terra, no distante Arganil, Distrito de Coimbra, para se dedicar intensamente ao trabalho. “Troquei Portugal pelo Brasil e, especialmente por Manaus”.

E foi em Manaus que ele fez amigos, construiu família, teve duas filhas e continuou trabalhando, contribuindo para manter viva as mais caras tradições culturais de Manaus.

– O título que hoje recebo, votado pelos membros desta Casa, representa para mim um orgulho de ter sido reconhecido pelos representantes do povo. Reconhecido como filho desta terra, pelo esforço que faço para entender a criatividade de cada cidadão desta cidade.

Para Armando, a melhor maneira para conhecer as pessoas é justamente deixá-las livres. “E é assim que agem os freqüentadores de meu estabelecimento comercial, com total liberdade”.

– Tanta liberdade que hoje me encontro aqui nesta Casa do Povo, bastante nervoso, para agradecer de todo o coração esta homenagem que toca fundo em meu coração e no de minha família! –, disse emocionado.


Serafim Corrêa, Mário Adolfo, Armando e Praciano


Dona Lourdes, emocionadíssima, e Armando pensando em quem havia ficado com a chave do bar


Ana Lúcia, Armando, Dona Lourdes e Ana Cláudia posando para a posteridade


Leonel Feitoza, Bosco Saraiva, Simão Pessoa, Carlos Dias, Jomar Fernandes, Praciano, Mário Adolfo, Rogelio Casado e Carlos Castro na bodega do Armando


Em pé: Dinari, Estelinha, Carlos Castro, Kledson, Marco Gomes, Rogelio Casado, Osmir Medeiros, Armando, Porrada, José Anchieta, Anselmo Chíxaro, Dudu, Pedro Paulo, Lucio Carril e Jackson. Sentados: Lucia Antony, Simão Pessoa, Deocleciano Souza, Jomar Fernandes, Mário Adolfo, Mestre Louro, José Klein e Davi Almeida


Bosco Saraiva, presidente da CMM, Armando Soares e Serafim Corrêa


Ana Lúcia, Armando, Vanessa Grazziotin, Dona Lourdes, Ana Cláudia e Lucia Antony


Os biqueiros vigários cantando o Hino Nacional

Carnaval 1999 - Armando Brasileiro


Para falar dos 500 anos do descobrimento do Brasil, o GRES Reino Unido da Liberdade, por iniciativa do poeta, compositor e vereador Bosco Saraiva, resolveu homenagear Armando Soares e a BICA no enredo daquele ano e acabou ganhando o Carnaval.

No material distribuído à imprensa, a Reino Unido dizia o seguinte:

O português que inspirou o enredo da Reino Unido este ano tem tudo a ver com o Carnaval. Armando seria apenas mais um português dono de padaria ou de lanchonete se não tivesse tido a brilhante idéia de fundar o Bar Nossa Senhora das Graças, em plena Praça de São Sebastião, no centro de Manaus.

Logo o local se transformou em reduto favorito dos boêmios, intelectuais, jornalistas, músicos, escritores, juristas, engenheiros, artistas, políticos e “halterocopistas” de uma forma geral.

O bar que relegou o nome de origem a segunda plano e ficou conhecido apenas pelo nome do proprietário, já tinha alguns ingredientes que, juntos, são perfeitos para um bom carnaval – bebida, curtição, alegria. Faltava, entretanto, formalizar a brincadeira.

Isso acabou acontecendo no dia 17 de janeiro de 1987, quando os assíduos freqüentadores Celito, Afonso Toscano, Manuelzinho Batera e Mário Jorge Buriti nomearam como presidente de honra o próprio Armando e fundaram a Banda Independente Confraria do Armando – a BICA .

O ato atendia “a antigos anseios dos freqüentadores do bar”, como diz o Livro de Ouro da banda, que tinha apenas fins “meramente recreativos”.

O nome, inspiradíssimo e que traduzia a anarquia saudável do Bar do Armando, saiu da cabeça do advogado Sérgio Litaiff.

Sempre anarquistas, os membros da BICA se negam a constituir uma diretoria formal.

Todos os freqüentadores do bar são diretores, mas há uma turma que se nega a assumir o cargo e sempre ficar “contra”.

Nem por isso os sambas deixam de sair todos os anos, contestados ou não. E todo mundo se entende.

A banda, que já é uma das mais tradicionais da cidade, só deixou de sair em 1988, por causa do falecimento da genitora de seu presidente de honra.

Nos outros anos, sempre esteve em evidência, reunindo cada vez mais gente e causando cada vez mais polêmica, sempre sob os auspícios do “Armando Brasileiro”, que por sinal deveria ter sido “extraditado” em 1993, quando uma crise diplomática entre Brasil e Portugal fez a irreverência da BICA simular a extradição do português.

A idéia do GRES Reino Unido da Liberdade, portanto, é juntar o mais puro carnaval, que ela pratica, com a alegria e a descontração da mais popular banda de rua da cidade.

Misturando estes dois elementos, o que vai para a avenida é a apoteose do samba, a irreverência, o idealismo e anarquia própria desta festa profana.

Contar o ímpeto dos “biqueiros” – tantas e tão simpáticas figuras, retratadas no livro de ouro da BICA pela “secretária” da banda, Heloísa Cardoso – será uma tarefa árdua. Mas como o samba não pode atravessar, aqui vamos nós...


Armando e Petronila, uma dupla tão boa quanto pipoca e guaraná

Na quarta-feira 18 de novembro de 1998, o poeta Simão Pessoa escreveu o seguinte texto no Amazonas em Tempo:

Na última sexta-feira, a escola de samba Reino Unido da Liberdade colocou a cidade em polvorosa com a finalíssima da escolha do samba de enredo do carnaval do próximo ano.

Tendo como pano de fundo a marca dos 500 anos de descobrimento do Brasil, a ser comemorado na virada do século, a escola resolveu homenagear a Banda Independente Confraria do Armando (BICA) e os biqueiros aportaram em massa na quadra da Reino Unido.

Acostumada a comandar desfiles com mais de 15 mil pessoas, a caravana da BICA teve certa dificuldade para se acomodar dentro da quadra e aguardar a apresentação dos cinco sambas-enredo previamente classificados.

Os sambas, que só começaram a ser cantados nas primeiras horas da madrugada de sábado, foram precedidos por vários grupos de pagode e pela bateria nota mil da escola, que não deixou ninguém ficar parado.

Foi uma festa magistral, com mais de 3 mil pessoas “só no sapatinho” e onde não foi registrado um único incidente.

Eufóricos, os diretores do GRES Reino Unido já estão dando como certa a vitória da escola no Sambódromo.

“Se a gente colocar metade dessa animação na avenida, não vai ter pra ninguém”, afirmava o diretor de Relações Públicas Ivan Oliveira.

O mesmo otimismo era compartilhado pelo comerciante Armando Soares, patrono da BICA, que comandava um camarote com mais de 50 convidados.

“Os patrícios já foram avisados que vão trocar o fado pelo samba. Vai ser uma festa portuguesa, com certeza”, brincava ele, enquanto distribuía para os convidados legítimos exemplares do famoso sanduíche X-Porco.

Nos camarotes, a animação era de final de Copa do Mundo. O juiz Jomar Fernandes, secundado por José Klein, Guto Rodrigues e José de Anchieta, não queria ver ninguém sem uma lata de cerveja na mão.

As jornalistas Dora Tupinambá, que estava acompanhado do marido, o ex-vereador Waldir Barros, e Lúcia Cordeiro, diretora de jornalismo da TV Cultura, também estavam pra lá de animadas.

Até a dona Lourdes, esposa do Armando, que não é nenhum exemplo de “ex-aluna da Socila”, estava educadíssima, tratando todo mundo com elegância e finesse.

Ela só franzia o cenho quando o jornalista Deocleciano Souza insinuava que a saradíssima Ana Cláudia, filha do casal de portugueses homenageados, iria desfilar como rainha da bateria.

Mostrando que a ala dos compositores da escola continuava sendo um dos pontos fortes do GRES Reino Unido, a decisão sobre o samba vencedor foi na base do “olho eletrônico”.

Salvo alguns deslizes gramaticais, todos os sambas tinham refrões ganchudos e retratavam com clareza a proposta inicial da escola: falar sobre o descobrimento do Brasil e a penetração lusitana na Amazônia, tendo como exemplo o comerciante Armando e a controvertida BICA, símbolo do nosso carnaval de rua.

No final, acabou prevalecendo o samba composto por Chocolate e defendido por Ulisses, apesar de alguns jurados terem preferido o refrão de outro samba do referido Chocolate, que tinha esses versos geniais: “Tem português no samba/ Ó raio, ora pois/ cantando fado de cuíca e tamborim/ Tem português no samba/ Só quero ver depois/ O Zé Pereira consolar o Arlequim”.

O compositor Gilsinho, presidente da Ala de Compositores, ficou de reunir os compositores e a diretoria da escola para discutir a inclusão (ou não) desse refrão no samba vencedor.

Após o anúncio do resultado, a festa ainda continuou até o dia amanhecer, mas na tarde do dia seguinte, no sábado, no Bar do Armando, a porca voltou a torcer o rabo.

Extasiado com a noitada anterior, o psiquiatra Rogelio Casado sugeriu que a BICA, no desfile do próximo ano, também homenageasse o Morro da Liberdade, com o tema “Unidos pela Liberdade”.

Metade dos biqueiros ficou a favor (acharam a proposta simpática) e metade ficou contra (acharam o tema muito piegas), estabelecendo-se um impasse.

Depois de acaloradas discussões beirando a histeria, ficou decidido que nessa sexta-feira os trabalho, ou melhor, os bate-bocas serão retomados. Ô raça!


Armando e Dona Lourdes como destaques do abre-alas do GRES Reino Unido da Liberdade

Na quinta-feira, 7 de janeiro de 1999, no primeiro ensaio geral da BICA, nova polêmica foi criada depois que a diretoria achou por bem utilizar o samba-enredo da Reino Unido como trilha sonora do desfile da banda.

A Ala dos Compositores da BICA se revoltou por ter sido preterida na escolha da marchinha do desfile.

“Não temos nada contra os compositores da Reino Unido, mas não podemos rasgar uma tradição de mais de dez anos de desfilar com a nossa própria música”, argumentou Afonso Toscano.

O tema “Armando Brasileiro”, o mesmo do GRES Reino Unido, havia sido aceito por unanimidade, mas os compositores não abriam mão da marcha-enredo feita pelos biqueiros.

Para completar, o compositor Américo Madrugada, que se encontrava em Maués, havia passado por telefone uma marchinha-exaltação e Afonso Toscano queria vê-la em julgamento:

Armando Brasileiro

A minha BICA sobe colorida
E na avenida hoje vem exaltar
(O quê? O quê?)
Armando Soares brasileiro
Quando chega fevereiro
Põe a BICA pra sambar

Chegava a Manaus em 53
Num barco de português
E começou a trabalhar
Foi morar na Aparecida
Sua história e sua vida
Virou destaque
No cenário nacional

Diz Armando pro mundo inteiro diz
Diz Armando mostra pra BICA
Que você é brasileiro! (bis)

E assim virou o rei da noite
Do luxuoso bar Odeon
Conheceu vários amores
Brigite, Morango e Pipoca
Faziam o seu ritual
Não tinha fado
Ele ia pro carnaval

Mas se casou
Não teve jeito
E o baú estava seco
E hoje carrega
O baú dentro do peito

A diretoria da banda, novamente, ficou dividida, apesar de todos concordarem que a marchinha era genial: metade achou que a letra era muito longa e não havia tempo de os biqueiros decorarem até o carnaval, dali a um mês.

A outra metade achou que seria uma desfeita ao GRES Reino Unido, que já havia até modificado o seu refrão para homenagear dois biqueiros da velha-guarda: Celeste Pereira (“Celestiou teu olhar”) e Antonio Paulo Graça (“Com Graça e emoção”).

Prevaleceu o bom senso. As duas letras foram aprovadas, mas no desfile da BICA a música mais executada foi o samba-enredo do GRES Reino Unido.


A princesinha Érika Tatiana mostrando o que qui a cabrocha tem

No sábado, 9 de janeiro, a coluna “Sim & Não”, do jornal A Crítica, publicava a seguinte nota:

Reforço

O Hospital Universitário Getúlio Vargas pode ter um reforço decisivo para a superação de sua crise. A banda da BICA, que tem como patrono o português Armando Soares – tema da Reino Unido –, vai destinar ao seu reaparelhamento toda a verba que arrecadar com a venda de camisetas. A BICA tem candidata também a Rainha do Carnaval. Trata-se de Érika Tatiana, de 14 anos.


A notinha do “Sim & Não” deixou os biqueiros com uma pulga atrás da orelha porque a BICA estava jogando para o espaço outra tradição bastante cara aos biqueiros: jamais participar de concursos oficiais bancados pelo governo, o que incluía a disputa de “Rainha do Carnaval de Manaus”.

Ocorre que a estonteante Érika Tatiana, uma estudante de 14 anos, era representante da nova geração de freqüentadores do bar. A banda precisava se adequar aos novos tempos.

Naquele ano, pela primeira e única vez na história, a Associação do Grupo Especial de Escolas de Samba de Manaus (Ageesma), entidade responsável pela organização do carnaval no Sambódromo, estava aceitando inscrições de candidatas avulsas, isto é, elas não precisavam ser representantes de escolas de sambas ou de blocos oficiais ligados a entidade.


A Érika Tatiana havia sido descoberta pelo poeta Simão Pessoa que, contrariando a recomendação da diretoria da BICA de avacalhar de vez com o concurso, não inscreveu a “sexyxagenária” Petronila na disputa oficial da Ageesma.

Além de ser, disparada, a mais novinha e exuberante entre as outras dezenove concorrentes, Érika Tatiana tinha outra virtude: era a única que sabia sambar com uma sandália-plataforma de 15 cm. Com seus 1,75cm de altura, 90 de busto, 65 de cintura e 98 de quadris, sua vitória eram favas contadas.

Na grande final, realizada no Sambódromo, Érika não recebeu duas notas (a nota mínima era cinco) por distração ou má fé de dois jurados babacas, e, apesar dos protestos dos biqueiros presentes nos local, foi considerada vencedora a rainha do GRES Andanças de Ciganos, Ana Célia.

Apesar da sacanagem, Érika ficou em um honroso 4.º lugar, a seis pontos da primeira colocada – o que dá a medida da “mão grande”.

Se tivesse obtido as duas notas mínimas, Érika ficaria com quatro pontos na frente da mais votada e o título seria dela.

A vagabundagem foi amplamente denunciada pela imprensa, mas os diretores da Ageesma se fizeram de mortos.

Em protesto, a BICA resolveu nunca mais participar dessa bandidagem feita às custas de dinheiro público (seu e meu, caro leitor!).


Érika passou a ser a primeira e única “Rainha do Carnaval da BICA” (a Petronila, claro, continuou reinando soberana como musa inspiradora e rainha da banda).


Chicão Cruz, Érika Tatiana, Jomar Fernandes e a juíza Joana Meireles

No sábado magro, 6 de fevereiro, dia de desfile da BICA, o poeta Simão Pessoa escreveu o seguinte texto no Amazonas em Tempo:

No último sábado, a intrépida Banda de Ipanema desfilou pela última vez neste século. Foi sua 35.º saída. Como sempre, duas semanas antes do carnaval. Como sempre, comandada por Albino Pinheiro, o Fidel Castro do pedaço.

O Bar Jangadeiro, onde o pessoal se concentrava desde a primeira saída, fechou. No lugar dele, abriram um restaurante japonês. Como a bandalha jamais iria trocar o chope pelo saquê ou a coxinha de galinha pelo sushi, a concentração pasou a ser feita num “sujinho” da Teixeira de Mello, na Praça General Osório.

O velho, desbotado e glorioso pendão auri-rubro, criado pelo designer Ferdy Carneiro, ainda é o mesmo de 1965, que teve Leila Diniz como porta-bandeira. As faixas onde se lêem “Yolhesman Crisbeles” e “Tiche Rânin” também não faltaram.

Agentes da Inteligência (pode?) do Exército queimaram as pestanas tentando decifrar algum significado subversivo nas frases. Perda de tempo já que as frases não queria dizer porra nenhuma. Foram copiadas pelo Ferdy do cartaz de um maluco-beleza que fazia ponto na Central Brasil.

A banda saiu pela primeira vez um ano depois do Golpe e incomodava tanto a direita quanto a esquerda. O jornalista Carlos Leonam batizou a turma de “esquerda festiva” e o rótulo acabou pegando.

Num desfile depois do AI-5, o cartunista Jaguar se fantasiou de censura à imprensa (com um colar de rolhas e um esparadrapo na boca) e o Hugo Bidet, de general, montado num pangaré. Quase foram em cana.

O hamster de estimação de Hugo Bidet, que não enjeitava chope, virou o ratinho Sig, depois popularizado pelo Jaguar nas páginas do Pasquim.

A maioria dos brincantes ia de terno, gravata e chapéu de palhinha ou panamá – para eles eram fantasias, pois só usavam esses trajes no desfile da banda.

O jornalista João Saldanha ia de freque e um rodo que empunhava à guisa de estandarte.

O advogado Mânlio Marat liderava a Ala das Piranhas, machões vestidos de mulher (a ala foi substituída por uma frenética chusma de travestis).

O agitador cultural Albino Pinheiro, com seu dólmã cheio de alamares e seu quepe, sempre foi o comandante vitalício e incontestável da galera.

A idade média dos rapazes que fundaram a banda em 1965 era de 30, 32 anos. Profissões, as mais variadas. Hugo Bidet, escrivão juramentado. Roniquito Chevalier (irmão da Scarlet Moon, ambos filhos do poeta amazonense Ramayana de Chevalier), economista. Martinho, juiz de Direito. China, massagista. Ziraldo, cartunista. Darwin Brandão, jornalista (pai do Henrique Brandão, fundador do bloco “Simpatia Quase Amor”) e tantos outros.

Este ano, Albino bateu o martelo: a madrinha da banda foi a pequenina Virgínia Lane, a eterna vedete do Brasil, e o padrinho, o avantajado escritor e jornalista maldito Fausto Wolff, com quem tomei um porre federal ano passado, junto com Mário Adolfo, na casa do Joaquim Marinho.

Esta pequena introdução foi para mostrar que, diferente do que alguns colunistas gostam de alardear, a BICA surgiu inspirada na Banda de Ipanema e não na falecida Banda do Mandy’s Bar, que sempre nos pareceu uma mistura indigesta de rapazes endinheirados, travecos e alpinistas sociais.

Ninguém coloca em dúvida o pioneirismo da Mandy’s, mas querer comparar a BICA com ela é o mesmo que comparar Chico Buarque com Cauby Peixoto, ou seja, não faz o menor sentido, apesar de os dois serem excelentes cantores.

O estandarte da BICA, com uma cueca samba-canção e duas réstias de cebola, a exemplo do “Yolhesman Crisbeles” ipanemense, também não queria dizer porra nenhuma. Mesmo porque, na época, contava-se a dedo os biqueiros que usavam cueca.

A BICA surgiu como uma diversão espontânea de compositores, jornalistas, poetas, profissionais liberais e boêmios que freqüentavam o Bar do Armando há pelo menos três décadas.

Desde os anos 70, durante o tríduo momesco, o local se transformava em palco das famosas “guerras de talco”, comandadas por Deocleciano Souza, Rosendo Lima, Zeca Alfaia e Amecy Souza.

Foi somente na segunda metade dos anos 80 que a banda surgiu em cena e sua gênese é no mínimo curiosa: espalharam na cidade o boato de que frei Fulgêncio (o local onde está o bar pertence à Igreja de São Sebastião) iria demolir o boteco para construir um shopping center.

Numa reunião tumultuada, os compositores Afonso Toscano e Celito, com a cumplicidade da professora universitária Heloísa (esposa do Celito), o jornalista Eduardo Gomes e o baterista Manuel Batera, resolveram radicalizar.

“Vamos criar a Confraria do Armando, publicar os estatutos no Diário Oficial e entrar na Câmara Municipal com o pedido de ‘utilidade pública’ para o local, que assim não haverá demolição nem com ordem expressa do papa”, argumentaram.

Era janeiro de 87. Como logo depois começaria o carnaval, Deocleciano cantou a pedra.

“O negócio é o seguinte. Se a gente ficar só nessa conversa mole, entramos pelo cano e o bar fecha”, explicou. “Para saberem que estamos dispostos a tudo, vamos criar uma banda carnavalesca, ocupar as ruas da cidade e fazer o maior escarcéu. Duvido que o Frei Fulgêncio tenha coragem de vir fechar o bar”.

Surgia a Banda Independente Confraria do Armando e o resto já faz parte da história.

Apesar de anarquia dominante, a banda tem uma organização exemplar, com algumas pessoas em postos-chave estratégicos.

Há cerca de dez anos, Francisco Cruz, Manuel Batera, Deocleciano e Jomar Fernandes se encarregam da organização do desfile.

Eu, Orlando Farias, Aldisio Filgueiras e Mário Adolfo nos encarregamos da divulgação na mídia.

Félix Valois, Alberto Simonetti, Jackson Andrade e Ary do Castro Filho cuidam dos mandados de segurança.

Rogelio Casado, José Klein, Pedro Paulo, Julinho da Receita e José de Anchieta arregimentam a mulherada.

Américo Madrugada, Celito e Afonso Toscano garantem a parte musical.

Augusto e Zezinho são os fotógrafos oficiais.

Jorge Palheta, Marco Gomes, Almir Graça, Paulo Mamulengo e Saleh Kitkat são responsáveis pelas confusões.

A musa Petronila evita que os diretores sofram assédio sexual de mulheres presentes.

O resto, como dizia Joyce, “é exílio, astúcia e silêncio”.

No seu último desfile do século, a BICA vai prestar uma homenagem aos biqueiros que atravessaram o grande umbral (Cancela, Rosendo Lima, Edson Ramos, Celeste Pereira, Valmir Teixeira, Antonio Paulo Graça e Silvério Tundis) doando roupas de cama, mesa e banho para instituições de caridade.

Também vai prestar suas condolências às bandas que morreram (Mandy’s, Calçada Alta e Cavalo de Aço) com uma grande salva de tiros de morteiros e uma queima de fogos de artifícios em frente ao Hotel Amazonas.

Este ano não houve escolha de marcha-enredo. A BICA vai desfilar ao som do samba-enredo do GRES Reino Unido, que homenageia a própria BICA. Isto é que é narcisimo!

Evoé, Momo, que hoje a gente “arma” no bar do português e vai zoar no carnaval.

Abaixo, o samba-enredo que deu o último título do milênio ao GRES Reino Unido:

Armando Brasileiro

Autor: Chocolate

Meu Reino
Soletrando seus versos
De braços abertos
Vê o céu beijando o mar
Vento forte, navegando rumo a sorte
Terra à vista, enfim aportei
Pau-brasil, teu nome reluz
Ilha de Vera Cruz
Um solo que espelhava riquezas
Atraía a Coroa em Portugal

Girar, girei,
No giro da Coroa me encantei
Minha escola é soberana
Sem igual
Quando o tema é carnaval (bis)

Pra festejar os seus 500 anos
Nesta terra, portugueses dão as mãos,
Sua história, costumes, tradições,
Trouxeram o progresso,
Pioneirismo e evolução
Quanta saudade do patrício Zé Pereira
Armando Brasileiro, figura popular,
Eu sou mais um biqueiro, eu vou BICAR
A irreverência é linguagem nua e crua
Manaus vai ver a banda passar
É o meu sonho,
É o carnaval de rua

Bota a BICA pra zuar
Celestiou em teu olhar
Com Graça e louvação
Sou do Morro, sou boêmio,
Salve São Sebastião (bis)


Petronila, Érika Tatiana e Armando, quase perdendo o folêgo


Orlando Farias, Chicão Cruz, Rogelio Casado, Felix Valois, Mário Adolfo, Baretta, Pedro Paulo e Simão Pessoa


O mamulengo do escritor Antonio Paulo Graça, falecido no ano anterior


Os biqueiros posando para a pose oficial. A gatinha Mona segura o estandarte


O jornalista Jânio Moraes, Simão Pessoa, Rogelio Casado e Mário Adolfo


A muvuca instalada no camarote da diretoria comunista


Lucio Carril, da Ala da Resistência, e Simão Pessoa


A miss Pepeta começando os aprontos para o desfile


Julinho da Receita, Mona, Simão Pessoa e Abelardo Siqueira


Chicão Cruz fazendo as honras da casa para o Rei Momo e a Rainha do Carnaval


Os Demônios da Tasmânia convocando a moçada pra descer a ladeira


Marco Gomes, Simão Pessoa, Belmirinho, Charles Stones e Rogelio Casado


José Anchieta e o Coronel Benfica tentando secar a Rainha do Carnaval


Os biqueiros se preparando para fazer a grande queima de fogos de artifício


Jomar Fernandes, Luizinho Queiroz e Pedro Paulo, mortos de doidos


Pedro Paulo e seus dois moleques, Alan e Thiago, da novíssima geração


Orlando Farias, Martinha, Elisângela, Lucio Carril e Vera Macuxi

Armando é Preso na Operação Sarapatel


Na quinta-feira, dia 17 de agosto de 1999, o jornalista Mário Adolfo publicou a seguinte matéria no jornal Amazonas em Tempo:

Largo de São Sebastião (urgente) – O português Armando Soares, proprietário do Bar do Armando, o maior reduto de jornalistas, advogados, políticos, artistas, membros do GLS e outros bichos, foi preso ontem às 17 horas sob a acusação de estar vendendo quelônios, crime previsto na Lei n.º 9.605/98, que dispõe sobre as “sanções penais e administrativas derivadas de condutas e atividades lesivas ao Meio-Ambiente”.

Alegando inocência, Armando foi conduzido pelos agentes ao camburão e a partir daí ninguém soube mais notícia de seu paradeiro, desencadeando uma onda de boatos, entre eles a de que Armando estava sendo expatriado para Portugal.

Uma comissão de resgate coordenada pelo juiz Jomar Fernandes e pelo advogado Alberto Simonetti foi organizada às pressas e, em menos de 15 minutos, um combio rumou em direção à Polícia Federal para soltar o Armando.

Ao chegar na portaria da PF, Jomar deu um carteiraço e sentenciou:

– Façam o favor de soltar o português se não quiserem que se instale uma crise entre os poderes!

Sem demonstrar o mínimo de preocupação com a autoridade do Jomar, o segurança da PF respondeu:

– O único português que está preso aqui, já se encontra na geladeira!

– Meu Deus, mataram o Armando! – gritou, entre lágrimas, o fotógrafo e relações-públicas do bar, Marquinhos Gomes.

Ao ouvir isso, Manuelzinho Batera começou logo a passar a sacolinha para recolher uma graninha e organizar um funeral digno para o Armando.

O promotor Chicão Cruz, mais cético, também puxou sua carteira:

– Vamos lá na geladeira identificar o corpo!

Chegando lá, o responsável pelo setor abriu a porta e um sopro congelado, acompanhado de um odor insuportável invadiu o ambiente lúgubre.

– Caralho, nem bem morreu e o português já está podre!

Ao notar que havia embrulhos no canto da geladeira, Chicão irritou-se.

– O que é isso, que português é esse?...

Paciente, o carcereiro respondeu.

– Bacalhau importado de Lisboa sem o pagamento do imposto, preso ontem à tarde.

Diante do mico, a comissão de resgate viu que Armando não estava lá e rumou para o Ibama (Instituto de Babacas Amigos dos Macacos e Araras) para soltar o português.

Chegando lá, foi o advogado Simonetti quem falou:

– Vocês querem ser culpados na mídia internacional de ter provocado o rompimento das relações Brasil-Portugal justamente nas comemorações dos 500 anos?

– Deus me livre e guarde! –, respondeu José Leiland, superintendente do Ibama, conduzindo o pessoal a uma sala onde Armando prestava depoimento.

As respostas do português já estavam irritando o delegado:

– Seu Armando, me responda de uma vez por todas, o senhor vende mesmo bicho de casco?...

– Vendo, mas com cascos nos pés, não é seu, doutore?

– Que bicho com cascos nos pés, sêo Armando?

– Porco, né doutore?

Para evitar mais desentendimentos, Simonetti propôs:

– Armando, conta a história desde o início!

– Não tem história nenhuma, rapaz. Eu estava comendo um ensopado de língua ao Arganil feita pela Lourdes quando chegaram dois camaradas e perguntaram se podiam guardar uns bichos de casco lá no meu tanque. Ora, sêo doutore, eu imaginei que era bodó e, sem levantar a vista do prato, autorizei.

Segundo Armando, meia hora depois chegaram os fiscais do Ibama.

Ninguém sabe quem dedou o português, mas suspeita-se de que tenha sido algum espião infiltrado no Partido Verde.

– Seu Armando, o senhor tem alguma coisa escondida lá no tanque?

– Além das minhas cuecas samba-canção, que a Lourdes botou de molho, tem um monte de bicho de casco!

Os fiscais foram lá e, ao meterem a cara dentro do tanque, contaram mais de 30 tartarugas, tracajás e iaçás. Armando tomou um susto:

– Ai, cairalho, como isso foi parar aí? Os sujeitos disseram que era bodó!...

Diante da saia justa, Armando ainda tentou seu explicar:

– Eu juro, seu delegado, que meu negócio é porco. Porco é permitido, não é?...

Mas não teve conversa. Ele foi logo algemado e empurrado para o camburão, no escândalo que ficou conhecido como “Operação Sarapatel”.

Depois de tudo explicado, Armando foi colocado em liberdade e jurou que nunca mais vai olhar pra tartaruga.

Quem não gostou nada do desfecho foi dona Lourdes que passou a noite atendendo aos trotes da canalha que freqüenta o boteco:

– Alô, é do Bar do Armando?

– É sim?

– Pode me informar qual o preço de uma tartaruga média?...

– Vai pra merda, seu f.d.p.! Por que não pergunta da vaca da tua mãe?!...