terça-feira, 22 de março de 2011

O Primeiro Baile do Ano Seguinte


Depois de sua estréia em grande estilo no 1º Baile do Havaí do Olímpico, em 1978, a Sambarca Show passou a se apresentar em vários bares da cidade, praticamente introduzindo em Manaus as rodas de pagode que estavam acontecendo, na mesma época, no Rio de Janeiro, na quadra do bloco Cacique de Ramos.

Metade dos 22 integrantes da Sambarca Show era oriunda do Cacique de Ramos: Chulapa, Nego Dito, Mão de Onça, Anisio Louro, Beto do Repique, Luiz Agogô, Carlinhos da Bia, Saracura, Dedé do Pandeiro, Cabeça Dura, Cabo Velho e Dorival.

Responsável musical pela Sambarca Show, Celso tocava o surdão e animava as rodas de pagode com sua alegria contagiante.

No ano seguinte, ele se transformou em empresário do grupo e introduziu uma orquestra de sopros para ter duas bandas diferentes tocando nas festas de carnaval.

Por sugestão de Aryzinho, a Sambarca Show começou a participar das rodas de serestas que aconteciam aos domingos no intimista Bar do Caldeira, na Rua José Clemente, 237, centro histórico de Manaus, atrás da Santa Casa de Misericórdia.


Aliás, o boteco se chama oficialmente Nossa Senhora dos Milagres.

Ele se transformou em Bar do Caldeira por causa de um incêndio ocorrido na lavanderia da Santa Casa, em 1968.

Uma das caldeiras explodiu e uma gigantesca parte da mesma acabou atingindo o bar, felizmente sem causar vítimas.

Ninguém sabe explicar porque o substantivo feminino “caldeira” se masculinizou.

O certo é que durante a semana, o Bar do Caldeira era ponto de encontro dos intelectuais ligados ao Clube da Madrugada e de empresários, estudantes e profissionais liberais.

Basta observar essa foto do Bar do Caldeira, em 1974, em que Vinicius de Moraes é o centro das atenções.


De gravata por cima do ombro, o então vereador Fábio Lucena. Também de gravata, por trás de Fábio, o professor Valdir Garcia. À direita de Fábio, de blusa estampada, o radialista José Maria Pinto.

Depois de muitas e boas, Vinicius escreveu um simpático bilhete, que alguém teve o bom gosto e a sensibilidade de guardar junto com a foto amarelecida pelo tempo:


Declaro, proclamo e assino que nesta sexta-feira 13 do mês de setembro de 1974 estive no “Caldeira”, na boa e carinhosa companhia dos maiores boemios de Manaus. E adorei! Vinicius, Manaus, 13.9.74

Nos finais de semana, o boteco se transformava em território livre dos seresteiros, sambistas e boêmios, sob o comando de Flávio de Souza, Tiba, Rodrigo e Mauro Ferradura, entre outros.

Em fevereiro de 1980, o carnaval baiano começou a aparecer na mídia nacional como “o carnaval mais vibrante e extenso do país” porque só terminava no primeiro sábado depois da quarta-feira de cinzas.

Foi quando os foliões suburucus da Vila de São José da Barra resolveram competir com os baianos e instituíram uma festa de carnaval em plena quarta-feira de cinzas intitulada “O Primeiro Baile do Ano Seguinte”.

– Enquanto os trios elétricos baianos se preocupavam em esticar a folia daquele ano, a gente já estava antecipando o início do carnaval do próximo ano! –, explica Ary de Castro Filho, um dos pais da idéia.

Ficou combinado que os diretores do Olímpico, Bancrévea, Guanabara, Fazendário e Agrepo, que não haviam brincado o carnaval, trariam as bebidas e os petiscos que não haviam sido consumidas nos bailes.

A festa seria dedicada aos seguranças, porteiros, garçons, músicos e seus familiares, tendo como ponto alto a degustação de um cozidão de levantar defunto.

A Sambarca Show seria responsável pela parte musical da presepada, mas qualquer outro músico que quisesse participar do evento seria benvindo.

Em outras palavras, o fuzuê seria uma espécie de genérico baré do frege recifense “Bacalhau do Batata”, criado em 1962 pelo garçom Isaías Pereira da Silva, o Batata, que organizou um bloco em homenagem àqueles que trabalharam durante todos os dias da folia e que, com o bloco, ganharam a chance de também brincar o carnaval.


O pré-aquecimento do “Primeiro Baile do Ano Seguinte” foi realizado no domingo gordo, no Bar do Caldeira, mas a Dona Maria, proprietária do bar, ficou tão irritada com a guerra de talco, lança perfume, confete e serpentina que rolou dentro do bar, que simplesmente cancelou o baile oficial marcado para dali a três dias.

Foi uma consternação geral.

Ocorre que os principais interessados na festa (garçons, seguranças, porteiros, etc) não foram avisados em tempo hábil.

Na quarta-feira de cinzas, por volta do meio-dia, umas 300 pessoas, incluindo crianças fantasiadas de piratas, arlequins e colombinas, começaram a se posicionar diante do Bar do Caldeira, mas nada de a Dona Maria abrir as portas do boteco.

Ela estava irredutível.

Foi quando apareceu o Rodrigo, que era contador do Olímpico, e levantou o ânimo dos foliões:

– Ninguém arreda o pé daqui, que eu vou bem ali conversar com um velho amigo...

Rodrigo retornou ao local depois de meia hora e foi logo avisando:

– O baile não vai ser cancelado, vai apenas mudar de local! Nós agora vamos desfilar pelas ruas cantando aquelas velhas marchinhas de carnaval até o bar do Sandoval, ali nas imediações do Colégio Dom Bosco! É lá que nós vamos brincar!

Dito isso, ele começou a batucar seu tamborim, a banda de sopros da Sambarca Show puxou um dobrado, Rodrigou abriu seu gogó de ouro e o canto dos 300 foliões ecoou pelas ruas meio desertas de Manaus:

– Allah-lá-ô, ô ô ô ô ô ô / Mas que calor, ô ô ô ô ô ô / Atravessamos o deserto do Saara / O sol estava quente / Queimou a nossa cara / Allah-lá-ô, ô ô ô ô ô ô / Mas que calor, ô ô ô ô ô ô / Viemos do Egito / E muitas vezes / Nós tivemos que rezar / Allah! Allah! Allah, meu bom Allah! / Mande água pra ioiô / Mande água pra iaiá / Allah! Meu bom Allah

Sob uma estrondosa queima de fogos, a animada passeata se dirigiu a Mercearia Nossa Senhora da Conceição, localizada na curva da rua Luiz Antony, por trás do Colégio Dom Bosco, onde hoje está localizado o restaurante Vitor & Vitória.

Lá, foram recebidos como heróis pelo valoroso Sandoval e a fuzarca entrou pela madrugada, sendo engrossada pelas mariposas da rua Itamaracá, que aproveitaram a oportunidade para também brincar de carnaval.

No segundo ano do “Primeiro Baile do Ano Seguinte”, também realizado no bar do Sandoval, os pastores evangélicos que possuíam um templo na ilharga do boteco alugaram meia dúzia de ônibus e levaram os seus fiéis embora, como se estivessem fugindo do Demo em pessoa, para fugir daquele antro de perdição.

O resto, conforme se diz, é história.

3 comentários:

  1. obrigada amigo por me deixar essas riquezas, sou fã incondicional do grupo pro alcool. beijosssssssss
    rosangela

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  2. Caranba, não sabia que o Vinicius de Moraes já esteve no Caldeira, certamente foi um dia especial. Por isso que quando tenho a honrra de pegar o microfone e cantar nesse bar, sinto um misto de responsabilidade e felicidade. Viva o Caldeira!

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  3. Que história bacana! Parabéns pela postagem e pelo Blog.

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