terça-feira, 2 de agosto de 2011

“Batuque é privilégio...”


O jornalista Samuel Wainer conferindo as rotativas do Última Hora

Por Lan

A Samuel Wainer, devo a oportunidade de ter ficado no Brasil, a partir de 1952. E não é para esnobar não, mas integrei sua equipe ao lado de companheiros como Vinicius de Moraes, João Cabral de Melo Neto, Otto Lara Rezende, Nélson e Augustinho Rodrigues, Joel e Paulo Silveira, Justino Martins, Hélio Peregrino, Nassara e tantos outros monstros sagrados da imprensa brasileira.

Seu jornal, Última Hora, e mais tarde Flan, o excelente semanário que também fundou, nasceram na Praça Onze. Infelizmente, não a antiga, aquela sentenciada no imortal samba de Herivelto Martins e Grande Otelo: “Vão acabar com a Praça Onze/ Não vai haver mais escolas de samba, não vai...”, e sim a outra, a do samba de Waldemar Ressurreição e Evaldo Rui: “Tu fostes antigamente a Praça Onze/ Teu bonde de tostão era ideal...”.

Praça pranteada antes e depois da avenida Presidente Vargas pedir passagem. Mas que continua existindo na encruzilhada de todos os caminhos da velha boemia carioca, que levam à Lapa, Cinelândia, Praça Tiradentes, Praça Mauá, Estácio (pra não falar em Mangue), e ao lado da Central do Brasil, de onde partem os trens para os pagodes suburbanos, à sombra da tradicional Favela.


Foi nela, na querida Praça Onze, onde, modéstia a parte, começou meu aprendizado carioca, detrás do primeiro bloco de sujos que passou ouriçando o Carnaval de 53.

Nesse ano, as escolas de samba ainda desfilavam numa passarela montada na avenida Presidente Vargas entre Rio Branco e Uruguaiana.

Ganhou a Portela.

Mas eu não vi.

O carnaval tinha me engolido na véspera.

Tive que me conformar em assistir à segunda colocada, Império Serrano, desfilando na quarta-feira de cinzas em Niterói.

Desse primeiro contato com uma escola, guardo na memória a imponente beleza de Olegária, destaque pioneiro da Serrinha, a leveza de seus passistas, o ritmo alucinante de sua bateria, e a roda de samba que alguns integrantes da escola improvisaram alegremente na barca da Cantareira de volta ao Rio de Janeiro.


Entre eles, nomes que mais tarde conheci e que respeito até hoje, como o de Silas de Oliveira – a meu ver, o maior compositor de samba-enredo de todos os tempos – Fuleiro, Mano Décio, Aniceto, Ivone Lara.

O refrão na boca de todos: “A baiana me pega, me joga na lama, eu não sou camarão, camarão me chamam...ai, baiana!...”.

Negras, mulatas, cabrochas e morenas maravilhosas rindo, provocando, incentivando os partideiros.

Bocas carnudas, confortáveis.

Olhos rasgados de malícia e sensualidade.

Trejeitos de Lundu.

Foi amor à primeira vista.


Amor mais forte e colorido talvez, do que aqueles que em outras etapas da minha vida, fizeram de mim um gaúcho no interior do Uruguai e da Argentina, ao som, das quenas, guitarras, charangos e bombos legueros.

Ou milonguero portenho nos lamentos do bandoneón de Anibal Troilo (Pichuco) em Buenos Aires.

A esse amor, porém, fiquei devendo meu primeiro livro, que é este.

Ainda nesse ano, e pela mão de Édson Carneiro, fui conhecendo o terreiro da Unidos do Salgueiro, seu lendário Casemiro Calça Larga, e um porre mais lendário ainda, de conhaque de Alcatrão.

Mangueira do Buraco Quente e do angu da Ifigênia.


Portela, sua jaqueira e seus admiráveis anfitriões: Caninha Verde, Manoel Bam Bam Bam, Rufino, João da Gente, João Calça Curta, Armando Santos e tantos outros bambas que me deram régua e compasso para esta crônica gráfica das escolas de samba.

Tenho acompanhado a vida de quase todas elas, a partir de 53, e a fantástica trajetória por elas percorrida.

Principalmente no desfile deslumbrante que apresentam no domingo de Carnaval.

Hoje em dia, sem exagero, o maior espetáculo popular do mundo.

Muitas coisas mudaram, algumas para melhor, se considerarmos a riqueza, o luxo, o requinte, a sofisticação com que desfilam a maioria delas, elementos positivos de julgamento.

Outras, infelizmente, aquelas que detalhavam a criatividade do sambista, nos seus aspectos mais subjetivos, nas suas expressões mais autênticas, se não se perderam, diluíram-se no gigantismo das escolas.

Que foram invadidas a partir dos anos 60, por uma verdadeira multidão de entusiastas “ciscadores”, que preferem brincar no carnaval das escolas, a ficar olhando o carnaval das escolas.


E isso, porque o carioca é antes de mais nada um folião nato, que gosta, quer e tem que participar do carnaval.

Não me cabe, neste livro, polemizar sobre este particular, e sim aplaudir, sem pieguismo, mais esta vitória do negro brasileiro que, com seu talento criador, contagiou a cidade inteira e, generosamente, como dizia meu irmão Candeia: “Damos do nosso coração/ alegria e amor/ a todos sem distinção de cor...” e a oportunidade de participar dessa festa.

O gigantismo das escolas, porém, determinou a necessidade inevitável de maior espaço.

Na medida em que elas foram crescendo, o local do desfile cresceu também.

Assim, da antiga passarela, as escolas do primeiro grupo, passaram a desfilar na avenida do Rio Branco, entre Almirante Barroso e Santa Luzia.

Daí, voltaram outra vez para a avenida Presidente Vargas, só que então, ao longo de quase um quilômetro, que é a distância entre a igreja da Candelária e a avenida Passos!

Este foi sem dúvida, o mais digno, o melhor dos cenários oferecidos às escolas, e à multidão de espectadores que se aglomeram anualmente para aplaudi-las.


Acredito ter sido o maior espaço, e a necessidade de se ocupar esse espaço, os grandes responsáveis pela série de inovações apresentadas pelas escolas visual, coreográfica e até estrutural do desfile, nos últimos anos.

Já na avenida Rio Branco, Arlindo Rodrigues e Fernando Pamplona, tinham revolucionado totalmente o estilo tradicional das fantasias e alegorias do Acadêmico do Salgueiro, com “Quilombo dos Palmares”.

Deslumbraram a platéia com um desfile de “bom gosto” que deu margem a inúmeras polêmicas entre “puristas” e adeptos dessa verdadeira “bossa nova visual”.

Mas na verdade, o tão controvertido “bom gosto” desses dois admiráveis artistas, que fez do Salgueiro realmente uma escola diferente, foi, a meu ver, a maior demonstração de amor e respeito já oferecida por dois brancos à cultura africana e afro-brasileira dentro de uma escola.

E uma contribuição estética, que jamais pretendeu agredir a tão decantada autenticidade.

Pois autenticidade não é sinônimo de ignorância.

Devolvendo ao negro brasileiro o que o próprio negro criou, em forma de esculturas, máscaras, adereços, vestimentas etc., eles mostraram o que de mais nobre e belo herdamos dessa cultura.


Uma escola de samba, por outro lado, não tem compromisso folclórico cristalizado.

Ela participa de uma competição, e da maior ou menor criatividade que apresente em cada um dos quesitos julgados, depende seu sucesso.

Daí, toda inovação que não agrida suas origens é válida.

A beleza visual que Arlindo Rodrigues e Fernando Pamplona, trouxeram na avenida, despertou tamanho apoio popular, que mesmo a revelia, as campeoníssimas Portela, Império Serrano e Mangueira, tiveram que modificar a tradicional ingenuidade de seus figurinos e alegorias, para concorrer com Acadêmicos do Salgueiro.

Sobreveio assim a necessidade de se contratarem profissionais do “metier”, cuja vivência de escola era pouca, ou quase nenhuma.

Os resultados logicamente nem sempre foram felizes.

A visão ocidental desses improvisados “carnavalescos” transformou o desfile muitas vezes em verdadeiros shows, dignos do Folies Bergère ou da Broadway.

Mas como se diz hoje em dia: tudo bem.


As escolas continuam num processo irreversível de faraônico deslumbramento, cujo extraordinário sucesso, torna obsoleto qualquer argumento em contrário.

Como bem disse Joãozinho Trinta: “Pobre gosta de luxo”.

E no meio do luxo, cabe acrescentar, de continuar descobrindo seus ídolos: Fuleiro, Wilma, Xangô, Neide, Benício, Paula, Delegado ou André, à frente da bateria da Mocidade Independente de Padre Miguel.

Pois “batuque é privilégio” e, enquanto isso acontecer, haverá Escolas de Samba.

Esse livro nasceu em Paris, no ano de 1966.

Lembro uma carta oral que Vinícius de Moraes enviou a Tom, e que ouvi na casa de Francette de Rio Branco.

Nela, falava que a saudade do Brasil quando se vive no exterior, se sente mais em forma de samba tradicional, do que no estilo “bossa nova”.

Nada mais certo.

“Aquarela do Brasil” continua arrepiando a gente lá fora.

Quanto mais, ouvindo a bateria da Portela, gravada num disco que achei por acaso no apartamento de Samuel Wainer da Rue Davioud!


Foi lá que surgiu o primeiro desenho, ao compasso do surdo de marcação.

O desenho das baianas que ilustram este depoimento, e que vendi a meu inesquecível amigo Horacinho de Carvalho, para arredondar o preço da passagem de volta ao Rio de Janeiro.

Doze anos depois, graças a um portelense santista Toninho Nahas, o “Turco”, filho de árabes dos quais não herdou nenhum poço de petróleo, e sim, umas dez “refinarias de sensibilidade”, cumpro a promessa que fiz a mim mesmo, de dedicar meu primeiro livro às escolas de samba.

Livro sem lantejoulas nem paetês.

No estilo “desesperado de la ternura”, que é a caricatura, inspirada no convívio pele a pele com toda essa gente maravilhosa.


Nos terreiros, nas favelas, nos barracos dos morros, ou nas casas suburbanas.

Onde nunca falta um São Jorge na parede, um violão, uma cerveja geladinha, e principalmente, amor.

Simplicidade.

Filosofia de vida que nossos poetas populares esbanjam nos seus sambas, e que poucos aproveitam.

Infelizmente.

Pelo muito que me ensinaram, pelo muito que aprendi, gostaria de agradecer um por um.

Mas são tantos, que os reúno num nome só, onde cabem todos.

Candeia, obrigado.



IMPORTANTE:

Esse texto é o posfácio do livro As Escolas de Lan, com desenhos do cartunista Lan e texto de apoio de Haroldo Costa, atualmente fora de catálogo, que está sendo postado a conta gotas aqui no mocó.

Os post anteriores (com exceção do texto do Moacyr Luz) também fazem parte da obra.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Meu Virgílio da Divina Comédia Carioca


Por Haroldo Costa

Em dia de sol e azul total, ele estaciona sua nuvenzinha ao pé do Pão de Açúcar e vai a praia.

Como todo carioca.

De preferência, ao lado de alguma certinha, o que no Rio não é difícil.

Só dá certinha.

Em dia de chuva, ele sobe mais um pouco e vai se encontrar com Silas de Oliveira, Paulo da Portela, Ismael Silva e com Natal na cabeceira, improvisam um partido alto.

Mais alto do que nunca.

O resto do ano, fica ali mesmo.

Ancorado em qualquer parte da Guanabara, paquerando a cidade, que também é mulher.

Autor do antológico “Samba do Crioulo Doido”, que foi o melhor caricatura já feita, de compositores de escola de samba, não podia deixar de entrar nesta homenagem, pelo tanto que fez por todos eles.

Seu nome não foi, é Sergio Porto, ou se preferirem, Stanislaw Ponte Preta.

Meu Orfeu Negro


Por Vinicius de Moraes

Conheci Haroldo Costa em Paris, em 1954, quando ali esteve com o grupo folclórico negro “Brasiliana”: idéia sua que Miecio Askanazy empresariou e levou adiante.

O pioneirismo da iniciativa e o relato circunstanciado das extraordinárias aventuras por que passou o conjunto, sobretudo em sua turnê sul-americana, fizeram-me de saída amigo de Haroldo: e boas risadas demos à lembrança das trapalhadas em que andou metido.

Cozinhei-lhes uma feijoada – e se tivesse dado a cada um seu peso em ouro não teriam saído mais felizes.

Dois dias depois ele me mandava dizer de Bruxelas que ainda tinha na boca o gostinho do molho de pimenta que eu lhes tinha servido.

Pudera! Tratava-se de uma pimenta africana que eu tinha encontrado na “Maison Hediard”, ali na Madeleine: fogo puro!

Em 1956, quando consegui financiamento para minha peça “Orfeu da Conceição”, foi em Haroldo Costa que finalmente nos fixamos, o diretor Leo Jusi e eu, para o papel-titulo.


Ele aliava ao physique du role um grande refinamento natural, que o levou a trabalhar sua personagem num sentido mais poético, como queríamos: um deus do morro, que com seu violão e seus sambas dilacerava o coração de todas as mulheres, acabando por atrair sobre si a tragédia e a morte.

Era uma iniciativa também pioneira, pois o teatro negro no Brasil limitava-se ainda aos corajosos esforços de Solano Trindade e Abdias Nascimento, e tudo teve que ser feito a bem dizer do nada.


Oscar Niemeyer largou seus projetos em andamento e veio fazer o cenário que lhe pedimos.

Antônio Carlos Jobim sentou-se ao piano e compôs sua primeira ouverture, além dos primeiros sambas de nossa parceria.

O bom Ciro Monteiro meteu sua caixa de fósforos no bolso e encarou que lhe com a maior seriedade em cena aberta.

Léa Garcia, antes do seu excelente desempenho no filme “Orfeu Negro”, extraído (a meu ver mal) da peça, era uma figura inesquecível, um figurino vermelho de Lila Bóscoli contra o ciclorama estrelejado.

E uma surda exclamação uníssona de admiração ergueu-se da platéia quando, ao som dos últimos acordes da ouverture de Jobim, o pano-de-boca abriu sobre o cenário de Niemeyer, na elegante noite de estréia no Teatro Municipal totalmente lotado.

“Orfeu da Conceição” marca o inicio do aproveitamento em larga escala do artista negro brasileiro, no teatro e em shows de boate.


E Haroldo Costa, pelo rigor seu profissionalismo e dignidade do seu desempenho, constitui certamente um exemplo para seus colegas de profissão.

A compostura do seu comportamento humano e artístico, aliado a uma inteligência arejada e despreconcebida, fazem dele, também, um autêntico líder de sua gente.

Mas não líder metido a tal.

Um que se fez porque sente o drama de sua raça e procura sempre levantá-la através das manifestações mais validas de sua contribuição à cultura brasileira: o ritmo, a música e a dança.


Trabalhador incansável, sua atuação em TV e nas boates tem sempre a distingui-la esse traço de amor à arte e aos mitos negros, mas sem qualquer preconceito e vasto amor pela beleza e pela cultura, no sentido de um Brasil cada vez mais humano e integrado.

Para mim, Haroldo Costa estará sempre ligado à imagem do meu Orfeu Negro, tal como o criei, com todo o patético do mito grego transportado para o morro e o carnaval carioca.

Somos amigos fraternos, e o melhor que dele poderia dizer é o que ele mesmo cantava em cena:

Se todos fossem iguais a você

Que maravilha viver...

O Cidadão Carioca


Por Sergio Porto

Claro, eu nasci ali, na primeira transversal à esquerda como, aliás, todos os meus irmãos.

Mudei-me para aqui e aqui fiquei.

Sou, portanto, um caso raro – só me mudei uma vez em toda a minha vida.

Sou carioca e tenho diversos amigos cariocas, nesta cidade de tantos brasileiros.

Vinicius de Moraes nasceu na Gávea, Lúcio Rangel na Tijuca, Di Cavalcanti em São Cristóvão – que naquele tempo era Chistovam –, Haroldo Barbosa, como Noel, é da Vila, Millor Fernandes do Meier, Anna, minha babá, que ontem aqui esteve de visita, nasceu, batizou-se em Copacabana.

Somos todos cariocas, nascidos Porto, Morais, Rangel, Cavalcanti, Barbosa ou Fernandes, como provam nossas respectivas carteiras de identidade e, no entanto, muitas vezes me tenho perguntado se seremos tão cariocas quanto Lanfranco Rosetti Vaselly Rossi-Rossi, natural de Firenze, criado em Montevidéu, formando em Buenos Aires e que, neste momento, pode ser encontrado em algum lugar de Santa Tereza.

Segundo o escritor Luiz Jardim – que sinal é de Garanhuns – todo brasileiro que vem para o Rio carioquiza-se e todo brasileiro que não vem não sabe o que perde.

Nós – os de casa – não nos preocupamos muito em conhecer nossa cidade (e se vocês prometem não contar pra ninguém eu lhes confesso que nunca subi ao Pão de Açúcar).

Às vezes nos tomamos de amores por ela, ficamos líricos, fazemos um verso, uma crônica, e os que vêm de Pernambuco, de Alagoas, Acre ou Paraná são, quase sempre, mais apaixonados do que nós ou, pelo menos, mais exuberantes em sua paixão.


Nada disso, porém, acontece com Lanfranco Rosetti Vaselly Rossi-Rossi.

Ele não nasceu aqui e nem descobriu o Rio – era um carioca predestinado.

Um dia confessou-me que, desde menino, pensava em poder morar no Rio, falar português (hoje ele não fala português, fala carioca), mergulhar nas ondas de Copacabana, subir o Morro da Mangueira, dançar um samba na “Estação Primeira”.

Perdeu-se pela música.

Principalmente pela música.

Quando menino, em Montevidéu, aguardava o dia inteiro um programa do rádio local, onde somente tocavam sambas.

Chamava-se – e ele nunca mais esqueceu – “Ritmos Cariocas”.

Lanfranco Rosetti Vaselly Rossi-Rossi voltou para a Itália, reviu Florença, passou por Milão e surpreendeu-se a comparar a Baia de Nápoles com a Guanabara que ele nunca tinha visto.

E era preciso conhecer.

Lanfranco voltou para a América, trabalhou em Buenos Aires e quando a oportunidade chegou, saltou na Praça Mauá perguntando onde morava o Cartola.

Que Cartola? – indagaram.

E Lanfranco Roserri Vaselly Rossi-Rossi, admirado de não saberem, explicava que Cartola era o grande sambista de Mangueira, o mesmo que era exaltado toda hora nas letras dos sambas modernos.

Uns não sabiam, outros diziam que já morrera e houve quem dissesse que Cartola enlouquecera.

O que fora sempre um entusiasta do samba não acreditou.

Quis ver para crer.


Subiu o morro, conheceu muitos sambistas, ficou amigo de todos, e acabou descobrindo Cartola – o Angenor de Oliveira, de quem ouvia os sambas lá em Montevidéu, com o ouvido pregado no rádio.

Lanfranco Rosetti Vaselly Rossi-Rossi tem um leve sotaque, mas sabe todas as gírias, assobia qualquer samba do falecido Geraldo Pereira e eu duvido que Mangueira não abra seu salão, quando por lá aparece.

Lanfranco conhece todas as ruas de Copacabana, passeia pela Zona Sul como eu, que aqui nasci.

Morou no Leme e na Rua do Riachuelo.

Agora este em Santa Tereza, mas vai mudar-se para Paquetá.

Se ele estiver parado numa esquina do Leblon e você perguntar onde fica Mangueira, ele explica direitinho: toma-se o “Estrada de Ferro-Leblon”, salta-se na cidade, pega-se o “Mauá-Inhaúma”, mas que seja Via Jacaré, etc., etc.


Mas se você estiver em Portela e quiser ir ao “Sacha’s”, pergunte ao rapaz loiro e de óculos, que está a um canto desenhando num papel os passos das cabrochas.

Ele explica direitinho.

A cidade não tem segredos para Lanfrenco, de família Rossi-Rossi.

Se é verdade que todos somos cariocas, até mesmo os prefeitos que antecederam ao atual, se é verdade o que diz o escritor Luiz Jardim, então – caramba! – mais de nós todos é Lanfranco ou, se preferem, o Lan, caricaturista notável, cidadão carioca.

Mitos Cariocas: Lan


Por Moacyr Luz

Minha amizade com o mestre Lan passa dos dez anos.

A certeza dessa conta tenho por ter intermediado uma encomenda dos craques do Pirajá para o artista, um cartão de boas festas do bar para o ano de 2000.

Pode parecer pouco, mas somos diários.

Nossas conversas pela manhã têm um tom nostálgico.

Ele reclama da incompatibilidade atual entre seu fígado e as jarras de caipirinha que gosta de beber.

Eu, de quase tudo que se chama álccol.

Lan, carinhosamente falando, é uma éspecia de Forrest Gump da cultura carioca depois dos anos 50.

Fez as capas de discos fundamentais como um clássico em violao e voz do genial Dorival Caymmi.

Desenhou todos os sambistas imagináveis de todas as escolas de samba da nossa cidade e, em especial, da Portela, azul do seu coração.

Me conta que em 1953, acompanhando uma caravana de jornalistas em estudos sobre os morros e suas agremiações foi surpreendido pela elegância dos componentes da Madureira.

Comandados por Paulo da Portela, a recepção marcou de vez a alma desse ítalo-carioca, o mestre das mulatas.

Bem recente, convidei-o pra assistir um jogo da Copa de 2006 num bar em Copacabana.

Ele se despencou de Itaipava, seu bunker atual, para o encontro, mas um chuva forte mudou nossos planos e fomos parar no aconchegante Degrau do Leblon.

Fim da partida, vitória suada, céu mais claro, fomos ao programa de origem, o bar de Copa.

Já na esquina, estranhei o movimento das radio-patrulhas.

Uma briga de torcida fez o recinto virar pó diante da rivalidade entre a Miguel Lemos e a turma da Barata.

Salvos, bebemos umas no Pavão Azul.

Em 2005, lancei um disco especial, “A Sedução Carioca do Poeta Brasileiro”.

Era um trabalho lítero-musical: musicar poemas de importante poetas brasileiros que tiveram a cidade do Rio de Janeiro como inspiração.

Havia Manoel Bandeira, Drumond e Mario de Andrade, todos por um instante, cariocas.

Marquei com o Lan no Bar Luiz pra falar sobre a capa desse CD, mas ele já chegou com idéia pronta, definitiva:

- O morro Dois Irmãos comparado as pernas de uma mulher.

E disse mais:

- São dois amantes, não irmãos.

Quem me apresentou esse amigo foi o parceiro Aldir Blanc.


Um pouco antes dessa capa, pensávamos num série de personalidades que a gente poderia imaginar, como um inventário humano da nossa cidade.

O nome Lan veio de cara e o samba acabou entrando no disco “Samba da Cidade”.

Se chama “Mitos Cariocas: Lan”.

É a nossa homenagem a esse artista que permanece intenso nas suas caricaturas semanais traduzindo em linhas sinuosas nossa maior curva:

- A vida.


Portelense,
bom de tango e coração circense,
arrebenta
com a pimenta braba do non sense.
Um menino
cujo defeito é não ser vascaíno.
Tipo avô
que endurece com mulata em “flô”.
Um canalha da Itália,
milongueiro, brasileiro.
Buzanfã
é tema pro élan do Lan.

Peixe-espada
temperado numa feijoada.
De virada,
não despreza o molho da rabada.
Pesquisando,
sacou que toda moça tem seu mel.
Bacharel,
pós-graduado dentro de um bordel.
Quem qui pode
como Bigode
Se der bode
com a patroa
numa boa,
é tema pro élan do Lan

No lápis dançam Irmãs Marinho,
Tijolo e Nelson Cavaquinho,
Narcisa e Clementina de Jesus
Zé Kéti, Alcides, Padeirinho
Neide, Natal, Vilma e Neguinho
Élton Medeiros e Arlindinho Cruz.

Das Oropa, Rei de Copa,
pagoderio, carioca,
no Amazonas e na Mooca,
bota e soca, na Mococa
Não tem toca, bom de boca
Pocahontas ficam tontas
vivem loucas,
sentadas no tchan do Lan.

Meu amigo, esse samba,
jeito antigo, fiz prum bamba,
tô contigo, boi não lamba
choram as sete cum tantã,
quase aurora, Iansã,
sem bambam,
vô mimbora pro amanhã
no Katamarã do Lan!!

terça-feira, 19 de abril de 2011

Folclore dos Meninos do Morro (1)


Chico Perneta, Pierre e Evandro Torres

Na metade dos anos 70, alguns pagodeiros do Morro da Liberdade – Bosco Saraiva, Jairo Beira-mar, Gilsinho Poeta, Nicéas Magalhães, Chocolate, Luizinho Sá, Chico Perneta e Ivan Oliveira, entre outros – se reuniam diariamente no meio da rua Dr. Martins Santana e faziam uma roda de samba bem informal.

O ritmo frenético dos surdos, tamborins e atabaques, entretanto, incomodava algumas pessoas.

Responsável pela dança regional “Milho Verde”, também na mesma rua, dona Sílvia era a mais incomodada de todas.

Segundo ela, a percussão sincopada do pagode atrapalhava o ensaio da dança regional, que tinha uma levada meio nordestina à base de sanfona, zabumba e pandeiro.

Certo dia, mais braba do que de costume, dona Sílvia ligou para a Polícia de Choque denunciando os baderneiros.

Com o país sob a égide da ditadura militar, a Polícia de Choque era famosa por não ouvir desculpas: os meganhas desciam do caminhão já distribuindo porrada em quem estivesse por perto, até não restar ninguém de pé. Depois de contar os mortos, iam embora.

Nesse dia, sabe-se lá por que, a moçada do pagode resolveu encerrar a roda de samba mais cedo do que de costume e foi se embriagar no Bar do Beto, ali perto.

Quando o caminhão da Polícia de Choque chegou ao local e ouviu a sanfona comendo no centro, os meganhas não tiveram dúvidas: encheram de porrada os brincantes da dança regional “Milho Verde”.

A carnificina foi tão violenta que dona Sílvia desmaiou.

Um dos coordenadores da dança era um sujeito bem baixinho chamado Brau, que apesar do defeito físico (uma imensa corcunda de camelo) era uma das pessoas mais animadas do pedaço.

Quando começou a pancadaria, Brau saiu correndo por uma viela, mas foi avistado por um meganha.

Tentando se safar, Brau se escondeu atrás de um poste, meio de lado, na pontinha dos pés.

O meganha sacou a arma e deu o ultimato:

– Sai de trás desse poste, porra, senão vou dar um tiro no meio da tua bunda!

Brau obedeceu.

Quando viu que a “bunda”, na realidade, era a “corcova” do rapaz, o meganha ficou todo errado.

Acabou mandando Brau ir pra casa e “não se meter mais com aquele bando de arruaceiros”.

Dona Sílvia nunca mais quis saber de chamar a polícia pra acabar com a roda de pagode da moçada.

Folclore dos Meninos do Morro (2)


Professor Almeida, Ivan de Oliveira e o radialista Costinha

Outro sujeito que vivia incomodado com a roda de pagode dos meninos do Morro da Liberdade era o empresário Franciner, pai do Clemilton, que muitos anos depois seria diretor de bateria da Mocidade Independente de Aparecida.

Dono de uma conhecida padaria na rua Dr. Martins Santana, “seo” Franciner cismou que a barulheira dos pagodeiros estava afastando os clientes do seu ponto comercial.

Certo dia, mais puto do que de costume, ele ligou para a Polícia Militar e denunciou que a baderna dos meninos já estava passando dos limites.

Nesse dia, por incrível que pareça, começou a cair uma chuva torrencial e os pagodeiros, para não deixar o samba morrer, compraram uma caixa de Caninha 51.

A “mardita” era servida em um único copo, daqueles reaproveitados de embalagem de azeitonas, e o sujeito tirava gosto com careta.

Era aquilo ou morrer de frio.

O pagode estava ficando mais quente do que nunca.

De repente, chega um “fusquinha” da Rádio Patrulha.

O soldado-motorista baixou um pouco o vidro, para não se molhar, e começou a chamar um dos pagodeiros.

Eles não deram nem confiança.

Um segundo soldado começou a fazer coro com o primeiro.

Os pagodeiros, nem aí.

Maior autoridade dentro do carro, o cabo arrumou a arma no coldre, saiu do veículo, enfrentou o vendaval e foi lá, conversar com os baderneiros.

Ele nem chegou a abrir a boca:

– Êi, pessoal, esse aqui é o cabo Macaxeira, o rei da caixinha de guerra. Traz logo uma aqui pra ele mostrar seu talento! Aproveita e capricha também numa dose de pinga, que ele é um dos nossos! –, avisou Jairo Beira-mar.

Apanhado no contrapé, o cabo sorveu a pinga de uma só lapada, pegou a caixinha de guerra e começou a estraçalhar.

Cinco doses de pinga depois, já meio grogue, Macaxeira foi lá no carro da Rádio Patrulha e deu a ordem:

– Avisa pro comando que já resolvemos a situação! Depois, desliguem o rádio e vamos cair na farra que todo mundo aqui é sangue-bom!

Os dois outros soldados nem titubearam.

Em dois minutos completamente encharcados, os três militares estavam participando da mais animada roda de pagode daquele sábado chuvoso.

“Seo” Franciner nunca mais confiou na polícia.

Folclore dos Meninos do Morro (3)


O eterno sambista Jairo Beira-mar

Apaixonado por samba desde menino, o delegado Petrônio Carvalho começou sua carreira de pagodeiro na escola de samba Vitória Régia, depois se mudou para a Sem Compromisso e, finalmente, resolveu deitar raízes na Reino Unido, depois que descobriu que um de seus subordinados, o investigador Jairo Beira-mar, era diretor de bateria da escola.

Petrônio Carvalho gostava de tocar tamborim, mas não tinha muita intimidade com o instrumento.

Por conta disso, Jairo Beira-mar lhe colocou para tocar caixinha de guerra na “Furiosa”.

Em 1989, a Reino Unido estava concentrada ao lado do cemitério São João Batista, no Boulevard Amazonas, pronta para descer (ou subir, sei lá!) a avenida Djalma Batista com o enredo “Axé Mãe Preta”.

Jairo posicionou a bateria como se deve: caixinhas de guerra e taróis aqui, frigideiras e reco-recos ali, surdos acolá, treme-terra mais atrás, cuícas e agogôs desse lado, tamborins no miolo, essas coisas.

Um atraso inexplicável no desfile – a Barelândia, do saudoso mestre Maranhão, havia cismado de fazer um protesto e teimava em não retirar os carros alegóricos da avenida – fez Jairo ir saber o que estava ocorrendo.

Quando voltou, vinte minutos depois, quase teve um infarto.

A bateria havia se transformado numa animada roda de pagode, comandada pelo delegado Petrônio Carvalho.

As garrafas de cachaça circulavam de mão em mão, dezenas de vagabundas, passistas e baitolas rebolavam provocativamente, transeuntes estavam tocando instrumentos da bateria, enfim, uma zorra total.

Jairo ficou simplesmente puto.

Enquanto reorganizava a bateria, a escola começou a desfilar.

O trabalho de reposicionar os ritmistas – alguns em adiantado estado de embriaguez alcoólica – era quase desumano.

Mesmo assim, Jairo foi em frente.

Os que cismavam de tocar “atravessado” recebiam uma baquetada do exigente diretor.

Feita do legítimo pau de ferro, a baqueta especial do diretor de bateria parecia um taco de beisebol.

Quando a escola entrou na Djalma Batista, o delegado Petrônio Carvalho levou a primeira baquetada no ombro, que quase lhe partiu a clavícula:

– Toca direito, porra! Se não quiser tocar, corre pro mato e vai embora! Só não quero ver neguinho vacilão fazendo merda aqui na avenida! Isso aqui é sério, caralho, isso aqui é sério! –, fulminou Jairo Beira-mar.

O delegado ficou passado com a reprimentada chula do subordinado, mas não disse nada.

Antes de chegar na antiga Tevelândia, Petrônio Carvalho já havia recebido meia dúzia de baquetadas no ombro.

Seu braço esquerdo estava quase desmontado.

Na área de dispersão, com todo mundo chorando, se abraçando e confraternizando pelo belíssimo desfile da escola (que acabou ganhando o título daquele ano), Petrônio chamou o subordinado:

– Porra, Jairo, eu nunca apanhei desse jeito nem do meu pai. Não quero mais saber dessa porra de bateria não. No próximo ano, vê se me arranja um lugar na diretoria de Harmonia. Eu estou saindo daqui pra ir falar com o massagista Dico Paiva, porque acho que meu ombro está fraturado...

Na segunda-feira seguinte, Petrônio apareceu na delegacia com o braço esquerdo na tipoia.

Sua clavícula tinha ido pro espaço.

Ele explicou aos subordinados que o problema ocorrera quando ele estava perseguindo uns bandidos nas quebradas do Puraquequara e levara uma queda da muléstia em uma das ruelas do bairro.

O investigador Jairo Beira-mar, na maior cara dura, confirmou a história.

Folclore dos Meninos do Morro (4)


Almir Guineto, Jovelina Pérola Negra e Zeca Pagodinho

Fevereiro de 1985. Apesar de ser apenas um bloco de empolgação, o Reino Unido da Liberdade promovia animadas rodas de pagode na sua quadra improvisada.

Em um sábado, um sujeito de bermudas, sandálias havaianas e camisa de meia sobre um dos ombros, tentou entrar na quadra da escola, mas foi barrado pelo porteiro.

O sujeito se afastou silenciosamente e ficou parado no canto da rua observando a agitação, mais perdido do que cachorro quando cai do carro de mudança.

Jairo Beira-mar, que estava acompanhando a cena de dentro da quadra da escola, foi falar com o porteiro.

– Porra, Buião, eu estava só vendo o teu jeito! Por que foi que você não deixou aquele cidadão entrar? Eu não já falei que todo mundo é benvindo aqui na nossa escola?... – detonou Jairo Beira-mar.

– Ah, bicho, ele chegou aqui procurando por uma pessoa que nunca ouvi falar, um cara de nome invocado! –, explicou o porteiro. “Eu não dei nem confiança, falei apenas que não conhecia o sujeito. Agora vê se eu tenho cara de mané pra adular macho pra entrar. Fiquei na minha. Ele não entrou porque não quis...”

Jairo Beira-mar atravessou a rua e foi conversar com o cidadão.

– Meu amigo, eu sou diretor do bloco Reino Unido e queria pedir desculpas pelo ocorrido, mas se você quiser entrar na quadra pra participar do nosso pagode, fique à vontade!

– Tudo bem, bicho, tudo bem! É que eu sou do Rio de Janeiro e não conheço ninguém aqui. Quem me convidou pra esse pagode foi um amigo aqui de Manaus, o compositor Paulo Onça, mas parece que ele ainda não chegou...

– O Paulo Onça é meu amigo. Se você quiser, a gente pode esperar por ele lá dentro da quadra. Meu nome é Jairo Beira-mar!

– Tudo bem, bicho, tudo bem! Meu nome é Zeca Pagodinho!

Os dois entraram juntos na quadra e ficaram conversando até a chegada do compositor Paulo Onça.

No ano seguinte, o sambista “barrado” pelo Buião estreava em disco solo, “Zeca Pagodinho”, onde emplacou os sucessos “Coração em Desalinho”, “Quando Eu Contar (IáIá)”, “Judia de Mim” e “Brincadeira tem Hora”, atingindo a marca de um milhão de cópias vendidas.

Folclore dos Meninos do Morro (5)


Conforme se sabe, a alma de uma escola de samba está personificada no diretor do barracão, um sujeito que sua, cospe e defeca sangue para confeccionar os carros alegóricos, adereços, alegorias e demais tralhas conceituais oriundas da mente, normalmente doentia, do carnavalesco da escola.

Pense na cidade de Brasília.

Todo mundo acha Oscar Niemeyer e Lucio Costa geniais, porque eles projetaram o plano piloto da cidade.

Numa escola de samba, os dois seriam os carnavalescos, os caras que botam a imaginação pra funcionar e sonham além dos limites.

Pouca gente sabe, entretanto, quem é Joaquim Moreira Cardozo.

Além de um excelente poeta e crítico de arte, ele foi o responsável pelo cálculo estrutural do projeto.

Sem ele, nenhum engenheiro conseguiria reproduzir aquelas curvaturas em concreto boladas por Niemeyer e Lucio Costa durante uma viagem de LSD.

Cardozo seria, grosso modo, o “diretor de barracão” da construção de Brasília.


Em meados dos anos 90, o diretor de barracão do GRES Reino Unido era um sujeitinho temperamental como uma cantora de ópera e que se achava as próprias “pregas da Odete”.

Sabazinho, esse era o nome da peça, tratava seus carros alegóricos, alegorias e adereços como filhos diletos de uma raça superior de extraterrestres.

Ele preferia ser morto a pedradas a passar pela experiência de ver alguma de suas “obras de arte” danificadas.

No dia do desfile, a tensão pré-menstrual do Sabazinho ia pro espaço: todo mundo era um conspirador em potencial para fazer suas maravilhas não funcionarem na avenida e ele encarava os conspiradores com uma fúria homicida.

Só não usava uma metralhadora portátil porque a diretoria da escola não deixava.

Mas como toda escola de samba que se preza deixa tudo pra cima da hora, as primeiras alas da Reino Unido já estavam entrando na Djalma Batista quando o último carro alegórico ainda estava sendo pintado com spray dourado (exigência do Sabazinho).

Posicionado em cima do carro, ele berrava as ordens pros vassalos.

Era um corre-corre infernal.

Recém-empossado diretor de Harmonia, o delegado Petrônio Carvalho, todo engomadinho, chegou na hora em que havia ocorrido um impasse: o carro alegórico da Medusa, de tão grande, não podia passar no Boulevard Amazonas porque alguns filhos da égua haviam estacionado os carros particulares no meio-fio.

A solução era arrastar o carro alegórico para o meio da rua.

A turma estava ali, tentando levantar o carro e posicioná-lo mais próximo do canteiro central, quando Sabazinho, lá do alto, viu o delegado, todo engomado, apenas observando a situação:

– Tu tá fazendo o quê parado aí, ô Zé-Boceta? –, disparou ele. “Mete a mão nessa porra e ajuda os outros, caralho! Quer vender beleza, vai lá pra Praça da Prefeitura. Lá é que é lugar de fresco...”.

Mais ofendido do que constrangido, Petrônio meteu a mão na massa.

Suas mãos ficaram douradas, por causa da tinta ainda úmida.

Duzentos metros depois, novo impasse.

Um fusca havia sido estacionado em fila dupla.

A única solução era o carro alegórico da Medusa passar por cima.

A TPM do Sabazinho virou complicação operatória pós-parto, com novo corre-corre para evitar que se abrisse um “buraco” entre as alas:

– Peguem a porra desse carro de pobre e joguem do outro lado da rua, caralho! Peguem a porra desse carro de pobre e joguem no quinto dos infernos, porque a gente está se atrasando e vamos acabar perdendo pontos! –, vociferava ele, montado na cabeça de Perseu.

Depois de quebrarem o vidro da janela, para abrir a porta do veículo e destravar a direção, uns vinte caras levantaram o fusca, entre eles Petrônio Carvalho, e começaram a levá-lo para o outro lado da pista do Boulevard Amazonas.

Foi quando a ficha do delegado caiu:

– Porra, eu sou um defensor da legalidade, uma autoridade constituída, e estou sendo conivente com este crime contra o patrimônio... –, meditou.

Aí, abruptamente, largou a Reino Unido à própria sorte, montou no seu alazão e ganhou a linha do horizonte.

Nunca mais foi visto na escola.

Folclore dos Meninos do Morro (6)


O engenheiro civil, compositor e parapsicólogo Carlão

Um dos grandes talentos do Morro da Liberdade, o compositor e designer gráfico Jorge Hallen, conhecido mundialmente como Chocolate, sempre teve uma vida amorosa atribulada.

Mulherengo desde a primeira infância, com 19 anos ele foi fisgado pela deidade de mau-caráter chamada Cupido, aquele filho bastardo de Vênus, a deusa do amor.

Chocolate ficou com os quatro pneus arriados por uma passista do Morro, que tinha uma padaria pra lá de excitante.

Namorou, noivou e casou em menos de seis meses.

Ele mesmo escolheu o terno para usar na cerimônia: um belíssimo paletó marrom (“cor de mel com areia”, segundo o poeta Gilsinho), com revestimento em seda chinesa e bolsos de pele de chinchila.

No dia do casamento, Chocolate estava mais alegre do que mosca em tampa de xarope.

A lua de mel, numa pousada incrementada no Paraná do Ramos, abaixo de Itacoatiara, durou mais de uma semana.

Menos de um ano depois, a distinta consorte resolveu pular a cerca.

Quando Chocolate descobriu que o novo inquilino da padaria de sua amada era o dono de uma panificadora, chegou a ter vontade de queimar a rosca, só pra sacanear com os dois.

Foi contido a tempo pelos amigos de sempre: Carlão, Gilsinho, Jairo, Ivan, Bosco, Luizinho.

Um ano depois, quando as lágrimas e as mágoas se acabaram, Chocolate descobriu que chifre é igual a consórcio: um dia, quando menos se espera, o sujeito é contemplado.

Competente e digno como sempre, ele foi à luta.

Depois de dois anos, uma nova passista do Morro lhe perturbou o juízo.

Amor à primeira vista.

Chocolate ficou com os quatro pneus, o estepe e o velocímetro desmantelados pelos lábios carnudos da guria.

Namorou, noivou e casou em menos de seis meses.

Ele mesmo escolheu o terno para usar na cerimônia: um belíssimo paletó marrom (“cor de mel com areia”, segundo o poeta Gilsinho), com revestimento em seda chinesa e bolsos de pele de chinchila.

No dia do casamento, Chocolate estava mais sério e concentrado do que cachorro andando de canoa.

A lua de mel, numa pousada incrementada no Lago do Limão, em Iranduba, durou mais de uma semana.

Menos de um ano depois, a distinta consorte resolveu pular a cerca.

Quando Chocolate descobriu que o novo inquilino dos lábios carnudos de sua amada era um violonista de bossa nova, teve vontade de quebrar seus LPs do João Gilberto, só pra sacanear com os dois.

Foi contido a tempo pelos amigos de sempre: Carlão, Gilsinho, Jairo, Ivan, Bosco, Luizinho.

Um ano depois, quando as lágrimas e as mágoas se acabaram, Chocolate descobriu que chifre é igual a sapato branco: só fica bonito nos outros.

Competente e digno como sempre, ele foi à luta.

Virou vegetariano e passou a só comer brotinhos.

Um dia, um amigo dele resolveu casar e o convidou para padrinho.

Solícito como sempre, Chocolate emprestou seu velho paletó para o compadre usar na cerimônia: aquele mesmo, o tal paletó marrom (“cor de mel com areia”, segundo o poeta Gilsinho), com revestimento em sede chinesa e bolsos de pele de chinchila.

No dia do casamento, o compadre estava mais eufórico do que vascaíno em dia de derrota do Mengo.

Seis meses depois, o compadre do Chocolate já era o mais novo membro da confraria de São Cornélio.

Estudante de parapsicologia, o engenheiro e pagodeiro Carlão pediu do Chocolate para ver as fotos oficiais do 1.º e do 2.º casamento.

Ele quase enfartou: com exceção do padre e dos dois coroinhas, todos os sujeitos que apareciam nas fotografias haviam sido corneados em condições inexplicáveis. Ali tinha coisa.

Depois de analisar a situação durante uma semana sem entender direito o que estava acontecendo, Carlão resolveu radicalizar e foi falar diretamente com a Mãe Zulmira, guia espiritual da Zona Sul e adjacências.

Ela colocou vidência, jogou os búzios, convocou os Orixás e foi na ferida: “Mande meu zifio jogar fora o paletó cor de mel com areia. Ele atrai coisas ruins. Mel com areia só dá melda!” (Claro que a doce Mãe Zulmira não usava esse linguajar. É só força de expressão!).

O enigma havia sido desvendado, mas foi um custo convencer Chocolate a se desfazer do tal paletó.

Enquanto Carlão o imobilizava com um “mata-leão” e Bosco Saraiava o segurava pelas duas pernas, Gilsinho e Ivan entraram na casa, localizaram o traste e o incendiaram no cruzamento das ruas São Pedro com Martins Santana, no meio de muita queima de pólvora, derramamento de cachaça e sacrifício de bodes e galinhas pretas.

O descarrego deu certo.

Alguns anos depois, Chocolate conheceu uma mulher maravilhosa, com quem vive até hoje.

Nunca mais ele sequer passou em frente de uma vitrine onde estivesse sendo exibido um paletó marrom.

Folclore dos Meninos do Morro (7)


Mestre Marçal afinando o tamborim de Mestre Pinheiro

O sambista Nilton Delfino Marçal, o famoso Mestre Marçal, nasceu em 1930 no bairro carioca de Ramos, onde viveu até os 11 anos.

Depois morou em São Cristóvão, Olaria, Estácio, Inhaúma e Pilares.

Ele morreu em 1994, em Pilares, mas seu coração sempre esteve em Madureira.

Mestre Marçal, que ainda menino aprendeu a tocar cuíca, tamborim, surdo, tarol, pandeiros e tantos outros instrumentos de percussão, durante 22 anos comandou a bateria da Portela.

Mas por problemas políticos deixou a escola, em 1985, assim como outros portelenses ilustres.

Mestre Marçal deu a volta por cima alguns anos depois.

Foi para a escola de samba Unidos da Tijuca e, mais importante, no final dos anos 80 gravou os discos em que provava seu grande talento musical.

“Siga em frente sem retorno e sem parada/ Lembre que a água passada não move a pá do moinho, não/ Vá com Deus/ E siga pelo acostamento/ Que é pro arrependimento/ Não te achar na contramão”, cantou ele na bela “Pela Sombra”, de Nelson Sargento e Nei Lopes.

Nilton Delfino Marçal era filho do grande sambista Armando Marçal.

Ele fez uma homenagem ao seu pai gravando “Não Diga A Minha Residência”, uma deliciosa parceria do velho Marçal e de Alcebíades Barcellos, o Bide.

No início dos anos 90, Bosco Saraiva, presidente de honra do GRES Reino Unido, resolveu trazer Mestre Marçal a Manaus para ele fazer um seminário sobre os macetes da armação de uma bateria de escola de samba.

O seminário foi aberto a todos os diretores de bateria, pagodeiros e ritmistas da cidade.

O velho sambista iria passar apenas um fim de semana em Manaus.

Bosco Saraiva e Edu do Banjo chegaram ao aeroporto e receberam o mestre, com muita festa.

Enquanto ele ia ao banheiro, os dois pegaram seus tíquetes de despacho de bagagem e foram retirar as malas na esteira.

Quando concluíram a tarefa, levaram um susto: estavam com oito malas em três carrinhos.

– Porra, Edu, eu só mandei uma passagem, mas pelo visto o Mestre Marçal trouxe toda a Velha-Guarda da Portela –, cochichou Bosco.

Cinco minutos depois, quando o sambista retornou do sanitário e viu os dois ali, foi logo indagando:

– O que qui você estão fazendo aí parados? Vamos embora...

– E o resto da turma? Os donos destas malas? –, insistiu Edu do Banjo.

– Que resto o quê, rapaz? Isso aí são meus objetos pessoais, meus paletozinhos. Vamos embora que a gente está perdendo muito tempo...

No Hotel Imperial, enquanto os carregadores levavam as malas para o quarto, Edu não se conteve.

– Mestre Marçal, ainda que mal pergunte. Pra que foi que o senhor trouxe tanto paletó?

– Ah, meu filho, eu sou pobre, mas gosto de me trajar bem e ando sempre prevenido –, explicou o velho sambista. “Vamos supor que nessa noite de sexta-feira caia uma chuva ou faça um friozinho. Então eu coloco meu terno azul-marinho ou um outro marrom-escuro. Aí, vamos supor que amanhã, sábado, faça um sol bacana, bem bonito. Então, de manhã, eu posso usar um terno branco perolizado e à noite um cinza-grafite ou um verde-musgo. Aí, chega o domingo. Dependendo do clima, eu posso usar um terno risca-de-giz, ou um de cor salmão, ou um quadriculado ou um azul-turquesa. E, claro, pra cada terno desse tem de ter um sapato e um cinto para combinar. Sabe como é, né? Um homem prevenido vale por dez...”.

Bosco Saraiva e Edu do Banjo ficaram visivelmente impressionados com o estilo, o refinamento e a elegância do velho sambista.

Folclore dos Meninos do Morro (8)


Gilsinho Poeta, Mestre Pinheiro e Monarco da Portela

No início dos anos 90, Bosco Saraiva resolveu abrir uma filial da escola de samba Reino Unido no Olímpico Clube e fez um convênio com Almerinho Botelho, presidente do clube.

Para marcar a inauguração do novo espaço, eles anunciaram a presença de duas feras: Mauro Diniz e Quinho da Ilha.

Nascido em Oswaldo Cruz, um dos bairros mais tradicionais do samba carioca, Mauro Diniz, aos quatro anos, ficava entre as pernas do pai, o lendário Monarco da Portela, deixando todos boquiabertos com a habilidade nos primeiros acordes no cavaquinho.

Aos oito anos, além de ter feito uma paródia de um samba de seu pai para ser o samba-enredo do Bloco da Alegria, foi presenteado com um violão por sua mãe, Thereza, pastora da escola.

Assim, o moleque deu seus primeiros passos em direção à música guiado simplesmente pelos bambas da Velha-Guarda da Portela.

Quinho da Ilha não tinha uma linhagem tão nobre quanto Mauro Diniz, mas tinha causado sensação em 1989, quando emplacou o samba-enredo “Festa Profana”, da União da Ilha, que deu à escola um histórico 3.º lugar.

O refrão do samba-enredo (“Eu vou tomar um porre de felicidade/ Vou sacudir, eu vou zoar toda cidade”) era repetido, de cor e salteado, mesmo por quem não se interessasse por samba.

Bosco Saraiva e Almerinho Botelho foram receber os ilustres sambistas no aeroporto, mas nem sombra deles.

Bosco ligou primeiro para Mauro Diniz.

O sambista explicou o problema. Estava muito gripado, de cama, com uma febre de quarenta graus, mas, para não “furar”, havia despachado seu pai, o velho Monarco.

Bosco localizou o homem completamente perdido no saguão do aeroporto, foi falar com ele e depois o deixou conversando com Almerinho.

Aí, ligou para Quinho da Ilha.

O sambista atendeu. Explicou que havia sido proibido pelo presidente da escola de se ausentar no Rio de Janeiro, mas, para não “furar”, havia despachado seu irmão, Alenício, mais conhecido como Zinho da Ilha.

Segundo Quinho, os dois tinham o mesmo timbre vocal e o mesmo repertório.

Bosco localizou um sujeito parecido com o Reginaldo Rossi também completamente perdido no saguão vazio do aeroporto e foi falar com ele.

O sujeito se identificou como Zinho, o irmão de Quinho, Bosco o apresentou a Almerinho e a pequena comitiva foi para o hotel.


Na noite do show, Bosco Saraiva estava nervoso e preocupado com a reação da plateia.

A cada cinco minutos, ele repassava o texto que o apresentador oficial, Ivan Oliveira, iria dizer: “Tudo bem, moçada, a gente não trouxe o Mauro Diniz, mas trouxemos seu pai, o grande Monarco, lenda viva do samba carioca, liderança inconteste da Velha-Guarda da Portela. Mostre serviço, meu rei, que a casa é toda sua!”.

Até aí, não haveria problema. Monarco, que vai completar 78 anos agora em 2011, está entre os compositores mais respeitados da sua geração.

E mesmo sendo um dos mais jovens integrantes da Velha-Guarda da Portela, ele é autor de músicas que foram sucessos nas vozes de Martinho da Vila (“Tudo menos Amor”), Paulinho da Viola (“Passando de Glória”) e Clara Nunes (“Rancho da Primavera”).

É um privilégio poder desfrutar de sua música. Ninguém comanda uma roda de samba como ele.

Mas, e o que dizer desse tal de Zinho da Ilha, quem ninguém conhecia?

Bosco ruminava, ruminava, e não chegava a nenhuma conclusão.

Ivan Oliveira foi mais prático: “Não vamos esquentar a cabeça não, meu chefe. Na hora em que ele entrar, a gente diminui a intensidade de luz do palco e deixa o cara fazer a onda dele. Se ele tiver o mesmo timbre de voz do irmão, ninguém vai notar a diferença. Eu mesmo nunca vi esse tal de Quinho...”.

Na hora combinada, Monarco subiu ao palco, cantou meia dúzia de canções e correu pro mato, já sem fôlego.

Na sequência, entrou Zinho da Ilha.

A única semelhança entre ele e o irmão famoso era que, em qualquer música que cantasse, Zinho dava um jeito de encaixar “ê, ê, ê, ê, ê, minha ilha! Minha ilha!”.

Tirando isso, o vexame era completo. O sujeito não conhecia samba nem de cumprimentar. Um horror!

Depois do show, Bosco e Almerinho quase foram linchados pela plateia, que se sentia miseravelmente ludibriada.

A filial da Reino Unido fechou as portas no dia seguinte e o Clube dos Cinco Aros levou vários anos para readquirir a credibilidade perdida.

Folclore dos Meninos do Morro (9)


Em 1997, Beth Carvalho tornou-se uma cantora interplanetária, quando a música “Coisinha do Pai”, grande sucesso de seu repertório, foi programa pela engenheira brasileira da Nasa, Jacqueline Lyra, para ativar um robô em Marte.

Mas dez anos antes de se tornar uma cantora interplanetária, a sambista foi contratada por Almerinho Botelho para abrilhantar um réveillon do Olímpico Clube, tendo no pré-show a “Bateria Furiosa” da Reino Unido.

A cantora exigiu 50% do cachê pago adiantado e 50% após o show. O presidente do Clube dos Cinco Aros concordou.

O réveillon cairia num sábado.

Beth Carvalho chegou à cidade por volta do meio-dia e ficou hospedada no Tropical Hotel, cujo réveillon seria abrilhantado pela cantora Eliana Pitman.

Por volta das 4 horas da tarde, ela ligou para o Almerinho.

Seus músicos haviam ficado encantados com os amplificadores Fender existentes na Importadora Mundial.

Será que o presidente do Olímpico não poderia antecipar o restante do cachê, para que os músicos comprassem aquelas maravilhas tecnológicas?

Almerinho concordou e pagou o restante.

Resolvido o problema, Beth Carvalho aboletou-se numa mesa do parque aquático do hotel e pôs-se a detonar lagostas de todos os tamanhos e garrafas e mais garrafas de uísque, em companhia do marido e empresário.

Onze horas da noite, Eliana Pitman subiu no palco do Tropical Hotel e começou seu show.

Beth continuava biritando.

No Olímpico, Almerinho Botelho e Tito Magnani começaram a ficar preocupados.

Meia-noite, queima de fogos de artifício em toda a cidade anunciando o Ano-Novo e nem sombra de Beth Carvalho.

A bateria da escola de samba Reino Unido, reforçada por Caio do Cavaco e Edu do Banjo, garantia a animação do carnaval.

A cada dez minutos, o radialista Paulo José subia no palco, pegava o microfone e anunciava:

– Dentro de mais alguns minutos, a grande Madrinha do Pagode Beeeth Carvaaaalhoooooo!

Por volta de uma hora da manhã, chega um micro-ônibus trazendo os músicos da banda da cantora.

Eles nem bem começaram a fazer a passagem de som, quando uma chuva fina começa a cair.

O empresário-marido da sambista, completamente zuruó de tanta birita, começa a sugerir que o show seja adiado:

– Olha, o palco está muito perto da piscina. Se essa chuva piorar, pode provocar um curto-circuito no microfone e eletrocutar a cantora. Acho melhor suspender o show...

– Nem pelo caralho! –, devolveu Almerinho. “Nós temos um contrato, essa multidão veio assistir aquela vigária, ela já recebeu o cachê adiantado e vai ter de vir cantar aqui, nem que seja com força policial!...”.

Três horas da manhã, nada.

Os instrumentistas da Reino Unidos já estavam com as mãos sangrando de tanto batucar.

Caio do Cavaco estava afônico de tanto se esgoelar como segunda voz de Tati do Reino e Mestre Arnoldo.

Edu do Banjo já tinha quebrado (e trocado) três cordas do instrumento.

Estavam putos com razão: haviam sidos contratados para fazer um pré-show de meia hora e já estavam no palco por mais de três horas.

Quatro horas da manhã, com a maioria dos foliões deixando as dependências do clube, Almerinho Botelho e Tito Magnani resolveram partir pro tudo ou nada.

Cada um colocou um três-oitão na cintura, entraram no carro e se mandaram para o Tropical Hotel.

Na portaria foram informados de que a cantora, morta de porre e vomitando abundantemente, havia sido embarcada às pressas para São Paulo por volta de meia-noite.

Além de biriteira, a maravilhosa “Madrinha do Pagode” também era uma tremenda “xexeira”.

Almerinho Botelho enfiou um processo nos cornos da cantora, que está rolando até hoje.

E Beth Carvalho nunca mais teve coragem de colocar os pés em Manaus.

Folclore dos Meninos do Morro (10)


O famoso sambista Quinho da Ilha foi fazer uma apresentação na escola de samba Reino Unido, num dia em que a quadra estava botando gente pelo ladrão.

Depois de ser obrigado a cantar pela quinta vez o samba-enredo “Festa Profana”, ele se virou para Miguelzinho, que tocava caixinha de guerra, e deu um toque:

– E aí, compadre, onde é que eu descolo uma pedra? Estou a fim de dar um pau...

Miguelzinho não perdeu a diplomacia:

– Êi, meu irmão, se tu tá a fim de pau, chama o Lambreta, que toca surdo de resposta. Semana passada, ele rasgou o quincas de uma menina até a xereca. Virou um buraco só... Aquilo sim é pau de dar em doido.

Quinho percebeu que os moleques da bateria não falavam a mesma língua dos pedra-noventa.

Cinco minutos depois, ele interpelou Burana, tocador de tarol:

– E aí, meu irmão. Onde é que tem pó de mármore, pra gente dar uma cafungada?...

Burana não perdeu a diplomacia:

– Porra, meu irmão, a gente não está nem em tempo de papagaio pra fazer cerol com pó de mármore e cortar a tua rabiola. Me erre, parente, que eu não sou chegado nessa onda de cafungar homem não...

Quinho disfarçou, cantou mais duas músicas, e resolveu partir para a confissão sem subterfúgios.

Escolheu um sujeito cabeludo e cheio de tatuagens, o Pedro Orelhinha, um fantástico tocador de tamborim:

– Êi, mano, adianta o meu lado! Eu estou a fim de cheirar, entendeu? Eu estou a fim de cheirar... Eu estou na maior secura há uns três dias. Adianta o meu lado, mano. Adianta o meu lado, que eu tô fissurado e pago legal...

Orelinha não perdeu a diplomacia:

– Qualé, mermão! Aqui nessa quadra a galera se amarra mesmo é em comer ovo cozido! Nóis é tudo pobre, véio! Quando não é ovo cozido é boi ralado ou sardinha em lata, morou? Se tu for cheirar alguma coisa aqui vai ser peido, tá sabendo? Mas já que tu tá muito fissurado, eu vou pagar uma pra ti. Segura aí, cara!...

Aí, virando-se de costa para o cantor, soltou o “pum” mais fedido da história da Reino Unido.

Foi preciso evacuar a quadra para eliminar a fedentina.

Quinho da Ilha pode não ter encontrado “brilho” nenhum na situação, mas jamais vai esquecer da performance de Pedro Orelhinha, baterista da banda punk Prisão de Ventre, tocador de tamborim da Reino Unido e emérito comedor de boi ralado, sardinha em lata, leite azedo com repolho e outras porcarias.

Folclore dos Meninos do Morro (11)


As poderosas tias baianas do Morro

Em 1989, o barracão da Reino Unido, localizado na rua Duque de Caxias, estava passando por uma maré de azar incrível.

O carnavalesco Shangai, trazido a peso de ouro da Beija-Flor, de Nilópolis, estava quase entrando em surto psicótico: nenhum carro alegórico conseguia ser completado pela sua equipe.

Sempre alguma coisa quebrava na hora do teste.

Os diretores da escola – Adib Mamede, João Thomé, Zé Picanço e Bosco Saraiva – fizeram uma reunião de emergência.

Se o enredo “Axé Mãe Preta” prestava uma homenagem aos orixás, por que diabos eles não estavam colaborando?

Uma das baianas da escola, dona Apia, mãe do Mestre Calama e mãe-de-santo poderosa, matou a charada.

Alguns diretores estavam muito “carregados” e “amarrados”, por conta das “más companhias”, e precisavam urgentemente tomar um banho de “descarrego”, para desfazer a “amarração”.

As suspeitas recaíam sobre Adib Mamede (que todo sábado costumava colocar 25 ninfetas peladas na piscina de sua casa na Vila da Prata enquanto decidia qual ia abater primeiro) e João Thomé (que por ser deputado federal era obrigado a atender trambiqueiros de vários calibres).

Os outros dois aceitaram participar da cerimônia por solidariedade.

Dona Apia era uma devota mãe-de-santo de Umbanda, da linha de Ogum.

As práticas existentes dentro dos terreiros de Umbanda variam muito.

Alguns demonstram uma ligação mais forte com o Espiritismo, outros se aproximam mais do Candomblé.

Em comum, têm a força dos rituais, denominados “giras”, santo entoam cânticos e dançam ao som dos atabaques.

As cerimônias geralmente ocorrem à noite e se estendem madrugada adentro.

Os espíritos que “descem” incorporam-se nos fiéis que estão participando da “gira”.

Aqueles que “recebem” os espíritos são chamados de “cavalos”.

Durante a incorporação, o “cavalo” permanece inconsciente, e quem fala por meio dele é seu “guia”, ou seja, a entidade espiritual a ele associada.

Para auxiliar os cavalos, existem os cambonos, que ocupam papel relevante na hierarquia do terreiro.

Mas a posição mais elevada cabe à mãe ou ao pai-de-santo, que é a pessoa responsável pelos trabalhos espirituais.

No dia combinado para a cerimônia, dona Apia incorporou um Preto Velho da falange de Ogum Beira-Mar (a linha de Ogum Beira-Mar é o cruzamente da linha de Ogum com a de Iemanjá), que foi logo obrigando os quatro diretores a ficarem pelados.

Apesar de ser uma cerimônia fechada e só estarem eles e a mãe-de-santo no local, foi um constrangimento geral.

Mas era passar por aquilo ou perder o carnaval daquele ano.

Nus em pelo, cada um deles foi posicionado em um círculo de pólvora e recebeu uma pequena cabaça contendo, além de sangue de um bode recém-sacrificado, duas doses de cachaça Velho Barreiro.

Foram instruídos a ingerir a mistura sem vomitar, para não desagradar o Exu Tranca Ruas, responsável por “desfazer” o trabalho.

O Preto Velho fez uma bênção nos rapazes com folhas de arruda, orou na cabeça de cada um deles e se despediu.

O Exu Tranca Ruas incorporou na mãe-de-santo para continuar a cerimônia.

Depois de ingerirem a mistura de sangue de bode com cachaça, cada um deles recebeu um alguidar contendo água de cheiro e ervas medicinais.

Assim que o círculo de pólvora começasse a arder, deveriam derramar o “banho” sobre a cabeça e esfregar o corpo com as ervas, para ficarem “limpos”.

Dito isso, Exu acendeu os círculos de pólvora. Foi uma explosão medonha.

Terminada a parte mais complicada da cerimônia, Exu se despediu e fio substituído de novo pelo Preto Velho.

Ele parabenizou cada um “zifio” e se preparou para fazer o “alongamento dos orixás”, a cerimônia final para dar boa sorte ao grupo.

A coisa era simples.

O Preto Velho ficaria costa a costa com cada um deles, com ambos os braços entrelaçados.

O discípulo então se curvaria para a frente, como se estivesse cumprimentando o Orixá, suspendendo o Preto Velho sobre as próprias costas.

Depois, voltaria à posição inicial e o procedimento seria repetido pelo Preto Velho.

Com Adib Mamede, João Thomé e Zé Picanço, que eram magrinhos, não houve problemas, mas quando chegou a vez do Bosco Saraiva, que estava visivelmente acima do peso, a coisa complicou.

Bosco fez a saudação numa boa, levantando Dona Apia sobre suas costas na maior tranquilidade.

Quando chegou a vez do Preto Velho fazer o mesmo, o orixá não suportou o peso descomunal de Bosco sobre suas costas e os dois desabaram no chão.

Foi um corre-corre infernal.

Dona Apia quebrou um dos braços em duas partes e sofreu ferimentos graves nas duas pernas.

Bosco sofreu luxação da munheca e uma raladura nos dedos da mão direita, de aparecer os ossos.

Na queda, os dois derrubaram a garrafa de Velho Barreiro, que derramou o líquido e atingiu o círculo de pólvora, levantando uma língua de fogo avermelhada que começou a queimar o congar, um altar profusamente enfeitado com flores, velas acesas e colares de contas coloridas, que simbolizam os diferentes santos e orixás.

Imediatamente, Zé Picanço levou os dois para o hospital, dirigindo só de cueca, enquanto Adib Mamede e João Thomé apagavam o princípio de incêndio no terreiro.

O sacrifício não foi em vão.

Naquele mesmo ano a Reino Unido conquistou o título de campeã do carnaval amazonense recebendo nota dez em todos os quesitos.

Folclore dos Meninos do Morro (12)



Shangai e Ana Lúcia Pinheiro

Por indicação do diretor de harmonia Luís Fernando Ribeiro do Carmo, o Laíla, da Beija-Flor de Nilópolis, o carnavalesco Shangai, também da Beija-Flor, foi contratado pelo GRES Reino Unido para supervisionar os serviços de confecção de carros alegóricos, adereços e alegorias no barracão da escola.

Para ajudá-lo, ele trouxe Paulinho, um renomado artista plástico da Baixada Fluminense e especialista em adereços.

Paulinho vestiu a camisa da Reino Unido.

Durante quinze dias, sem parar nem para tomar banho, ele comandou uma equipe de marceneiros, pintores e soldadores para construir um sem-números de adereços deslumbrantes.

Sua única bermuda jeans estava tão suja, imunda e encardida com pigmentos de tinta e cola de sapateiro que seria capaz de ficar em pé sozinha.

Acontece que a Reino Unido estava passando por uma maré de azar da moléstia e Paulinho foi um dos escolhidos para receber um “banho de descarrego”.

Apesar de católico praticante, ele aceitou a nova missão com o estoicismo de um soldado de Leônidas na batalha das Termópilas.

Nu em pelo no barracão da escola, Paulinho recebeu o “banho” em uma bambona plástica de cinco litros.

A infusão continha, entre outros ingredientes, cachaça de cabeça, limão-galego, álcool industrial e pimenta-malagueta batida no liquidificador.

O teor de corrosão da mistura? Semelhante a ácido de bateria.

O artista plástico derramou o “banho” na cabeça e, em menos de dez segundos, saiu urrando de dor pela Duque de Caxias, completamente pelado.

Foi uma luta conseguir segurar o sujeito para saber o que havia acontecido.

O problema é que o calor infernal do barracão, a umidade da cidade e a falta de asseio do aderecista, que havia passado quinze dias sem tomar banho, tinham produzido um viveiro de micoses nas suas virilhas.

De tanto coçar, elas estavam em carne viva.

Seu saco escrotal, branco de fuá (aquele pó finíssimo que se desprende da pele quando a arranham), também estava em carne viva.

O “ácido de bateria” fez o resto.

Paulinho passou uma semana fazendo “banho de assento” com água gelada e usando fraldão geriátrico.

Folclore dos Meninos do Morro (13)


Tetê, a viúva do saudoso Luzinho Sá

Ex-presidente da Reino Unido, o sambista Luizinho Sá havia sido eleito diretor de Relações Publicas da Associação do Grupo Especial de Escolas de Samba (Ageesma) quando recebeu uma incumbência inusitada: ficar como cicerone de Priscila Pantera, uma mulata de quatrocentos talheres que havia sido eleita 1.ª Princesa do Carnaval.

Cabia a ele levar a mocinha para os programas de rádio e televisão, entrevistas em jornais, aparições públicas em bandas carnavalescas, camarotes de bailes de carnaval e por aí afora.

Além de bonita, a mulata tinha um corpo estilo violão (os avantajados músculos glúteos eram um convite obsceno a luxúrias inconfessáveis) e – pecados dos pecados! – sua voz era rouquenha, dengosa, meio infantil, como se a mocinha estivesse sempre à beira de um orgasmo espetacular.

A princesinha de dezoito anos ficou logo amiga do sambista e o relacionamento deles era como se tivessem sidos amigos desde o jardim de infância.

Luizinho era uma espécie de personal trainer da princesa para assuntos de moda, maquiagem e outras bobagens do gênero.

Determinado dia, Luizinho foi apanhar a menina em casa para mais uma de suas (dela) badalações usuais e resolveu levar junto a esposa, Tetê, com outras duas amigas.

Mal a princesinha entrou no carro, toda emperiquitada, já começou a retocar o batom nos lábios carnudos, se olhando num pequeno espelho.

Enquanto guardava as tranqueiras na bolsa, caprichou na voz dengosa e sensual e disparou:

– Lulu, você acha que aquele biquíni douradinho está muito indecente? Se você quiser, eu troco por aquele prateado com apliquinhos de strass...

Luizinho fingiu que não ouviu. Tetê se mexeu esquisita na cadeira ao lado.

Cinco minutos depois, a princesa caprichou mais uma vez na voz dengosa e sensual e disparou:

– Lulu, aquela sandalinha prateada machucou o meu pezinho. Ele está cheio de calinho, depois te mostro. Dói que só, Lulu, dói que só...

Luizinho fingiu que não ouviu. Tetê deu uma tossida esquisita e começou a se abanar com um leque, apesar do ar-condicionado do carro estar ligado.

Cinco minutos depois, a princesinha caprichou mais uma vez na voz dengosa e sensual, e aí, quase gemendo, disparou:

– Lulu, será que dava pra gente aumentar um pouco a abertura daquela tiara? Sabe, Lulu, ela está muito apertada e minha cabecinha está doendo, doendo...

Luizinho fingiu que não ouviu. Tetê começou a procurar no porta-luvas do carro pelo vidro de Lexotan.

Cinco minutos depois, a princesinha caprichou mais uma vez na voz dengosa e sensual, e aí, como se estivesse arfando perigosamente à beira de um orgasmo múltiplo, gemeu num arrulho rouco:

– Lulu...

Ela nem conseguiu completar a frase.

Virando-se para o banco de trás, Tetê se ajoelhou sobre o assento dianteiro e liberou todo o ódio acumulado:

– Lulu é minha buceta, caralho! Vai foder pica, sua puta sirigaita! O nome do meu marido é Luizinho, vagabunda! Lulu é a puta que te pariu!

Antes que Tetê tirasse o sapato de salto agulha e fizesse um estrago na cabeça da princesinha, Luizinho estacionou o carro, tirou a mulata sestrosa de dentro, parou um táxi e despachou a menina para um lugar incerto e não sabido.

Ficou três meses sem colocar os pés na Ageesma.

Folclore dos Meninos do Morro (14)


Gilsinho, Zé Picanço e o saudoso Carioca do Pandeiro

A mãe do poeta Gilsinho Nogueira ficou encarregada de fazer as roupas dos puxadores de samba da Reino Unido, no ano em que a escola andava numa pindaíba de dar dó.

Para impressionar o cantor Gera da Portela, que ia defender o samba da Reino Unido na avenida, os diretores optaram por um blazer e uma calça de seda branca, com uma discreta camisa verde por baixo do blazer.

A costureira aceitou a encomenda, sem cobrar nada nem pelos tecidos, somente para ajudar a escola.

Ao todo seriam seis ternos estilosos: o do puxador (Gera da Portela), os dos vocais de apoio (Almeron, Roque, Erasmo e Renato) e o do diretor de bateria (Mestre Arnoldo).

O restante da turma (diretores de alas, diretores de harmonia, pessoal de apoio etc.) teriam de se contentar com aquela furrecas camisas de meia fio 24 e calças de brim coreanas compradas no Sukatão. A maré não tava pra peixe.

A costureira só conseguiu terminar a encomenda no dia do desfile, perto das sete da noite.

Como a escola só iria desfilar por volta das duas da madrugada, havia tempo suficiente.

Gilsinho acondicionou as fantasias em duas sacolas de plástico, pendurou num poste perto da mesa de dominó que funcionava no Bar Kipapo’s, de um de seus irmãos, e avisou:

– Se alguém for lá pras bandas do Morro é para entregar essas duas sacolas pro Niceias Magalhães, que ele já sabe o que fazer...

Dito isso, ele foi jantar na casa de sua mãe, que ficava atrás do boteco.

Quando retornou, duas horas depois, o poeta não encontrou as sacolas no lugar.

Gilsinho percebeu que os jogadores de dominó e os pinguços do boteco ainda eram os mesmos.

Se ninguém tinha saído dali pra ir ao Morro, como foi que as sacolas desapareceram?

Pergunta daqui, pergunta dali e nada.

Ninguém tinha a menor ideia do que poderia ter acontecido com as sacolas.

Um dos pinguços disse que a única coisa anormal que tinha passado por ali era o carro de coleta de lixo.

O carro costumava passar de madrugada, mas naquele sábado de carnaval havia passado mais cedo.

Gilsinho matou a charada: os lixeiros confundiram os sacos pendurados no poste com sacos de lixo e os colocaram no carro coletor.

Ele e seu irmão Gilberto, dono do Kipapo’s, entraram num fusquinha e saíram na captura do carro do lixo.

Viraram a Praça 14 e o centro da cidade de cabeça pra baixo, e nada.

Agora era uma corrida contra o tempo.

Por volta da meia-noite, encontraram o carro coletor na Sete de Setembro, em frente do Palácio Rio Negro.

Gilberto trancou o carro de lixo com seu fusquinha, sacou um três-oitão e obrigou o motorista a descarregar o lixo no meio da rua.

Percebendo que Gilberto estava cada vez mais nervoso e disposto a atirar para matar, o motorista obedeceu.

Um mau cheiro disgramado tomou conta do quarteirão.

No meio do monturo, Gilsinho conseguiu localizar as duas sacolas, cheias de chorume.

Para sorte deles, elas ainda não haviam passado pelo triturador.

Tapando o nariz e segurando as sacolas penduradas para fora da janela, os dois retornaram à casa da mãe, enquanto os lixeiros dirigiam toda espécie de palavrões aos dois sambistas, putos da vida pela trabalheira da moléstia de recolocar o lixo de volta no carro coletor.

A mãe de Gilsinho, com a mesma abnegação de sempre, lavou as roupas com sal grosso, detergente e amoníaco.

Com uma perícia extraordinária, secou as roupas no ferro elétrico.

O mau cheiro dos ternos, entretanto, continuava insuportável.

Maria, uma das irmãs do poeta, entrou na briga.

Pegou sua coleção de perfumes franceses, ou melhor, de “Eau de Toilette” da marca Versace, linha V/S Versus, que usava com parcimônia e somente em ocasiões pra lá de especiais – e, quase chorando, fez o que precisava ser feito: encharcou as roupas de perfume.

Oito vidros foram gastos na brincadeira. A briga entre o Versace e o chorume prometia.

Por volta de uma e meia da madrugada, Gilsinho conseguiu entregar os ternos aos verdadeiros donos.

Cheios do “goró”, nenhum deles percebeu nada de extraordinário nas roupas.

E com exceção de Gera da Portela, que no dia seguinte amanheceu com um inexplicável “caminho de cobra” no meio das costas, ninguém se queixou de nada.

Naquele ano, a Reino Unido desfilou o tema “Vem a mais de mil”.

Aliás, era essa importância que tinha custado cada vidro de perfume da Maria...

Folclore dos Meninos do Morro (15)


O jornalista Hiel Levy havia sido contratado pelo GRES Reino Unido como assessor de imprensa e relações-públicas.

Para mostrar serviço, ele levou para a quadra da escola, pela primeira vez, o jornalista Sérgio Bártholo, que sempre gostou de pagode.

Se tudo desse certo, Sérgio poderia fazer um comentário simpático sobre a escola de samba no jornal em que trabalhava.

Os dois chegaram ao Bar do Lateral, começaram a biritar numa mesa e resolveram discutir amigavelmente sobre os estrupícios do mundo.

Depois de quase meia hora de conversa, se aproximaram dois ex-presidentes da Reino Unido, Jairo Beira-mar e Niceias Magalhães, que resolveram fazer companhia aos jornalistas. Uma questão de diplomacia.

Sem saber de quem se tratava, Serginho estava empolgado com o próprio discurso (as origens das desigualdades sociais) e resolveu ser categórico:

– Se essa nossa polícia não fosse tão corrupta, tão mesquinha, tão bandida, tão safada e tão covarde na hora de enfrentar as oligarquias e o crime organizado, a história seria outra, Hiel, a história seria outra! Eu digo isso porque conheço um monte de policiais e todos eles são ladrões! Nessa nossa polícia só tem filho da puta, Hiel, só tem filho da puta!

Serginho disse isso, sorveu um gole de cerveja, e só então foi apertar na mão dos ilustres cidadãos, que haviam se abancado na mesa:

– Prazer, Sérgio Bártholo, jornalista.

– O prazer é meu. Eu sou o Niceias Magalhães, policial civil.

Serginho ficou meio sem jeito e estendeu a mão para Jairo Beira-mar.

– Prazer, Sérgio Bártholo, jornalista.

– Muito prazer, seu Sérgio Bártholo. Meu nome é Jairo Beira-mar, e eu também sou policial civil.

Serginho quase teve uma síncope cardíaca.

Dois policiais civis na mesa, no momento em que ele acabara de sacanear com a polícia. Aquilo devia ser um pesadelo.

Hiel apressou-se em explicar que os dois eram ex-presidentes da Reino Unido.

Os quatro ficaram calados, se analisando, por quase dez minutos.

O investigador Jairo Beira-mar, com a tranquilidade de sempre, quebrou o silêncio constrangedor:

– O senhor tem razão, seu Sérgio, mas só em parte. A história não é bem assim.

E pôs-se a falar do trabalho (digno e meritório, diga-se de passagem) deles dois, no papel de investigadores da Polícia Civil.

Serginho, depois do puta susto, ficou travado.

A cerveja esquentando no copo e ele procurando um bueiro para se esconder.

Sabedor de que nunca há uma segunda oportunidade para se causar uma primeira boa impressão, Serginho começou a elogiar a Polícia Civil.

E seu discurso foi tão eloquente, brilhante e elucidativo, que até hoje Jairo e Niceias pensam que a Polícia Civil é dez vezes melhor do que eles próprios acreditam.

Ninguém pode confiar em jornalistas.