sexta-feira, 29 de maio de 2015

Uma história que deu samba (16)


De repente, em pleno desfile, a bateria da Mocidade Independente quase emudece. Apenas uma caixa repica, mantendo o ritmo, enquanto a escola continua cantando e desfilando majestosa.
Nascia a “paradinha” de Mestre André, que também revolucionou o carnaval carioca.
Entre os fundadores da Escola de Samba Mocidade Independente de Padre Miguel, consta o nome de José Pereira da Silva, o que, dito assim, sem mais aquela, não terá maior significado, nem no subúrbio que abriga a hoje famosa Escola verde e branca.
Mas, em qualquer botequim onde se fale de samba, em todo o Rio de Janeiro, nas pesquisas dos historiadores do assunto, na memória dos sambistas e no imaginário das novas gerações, 
Mestre André ocupa o lugar reservado a uns poucos predestinados, aos quais o samba deve boa parcela do prestígio que agora desfruta.
E Mestre André não era outro que o quase anônimo José Pereira da Silva.

Organizando, dirigindo, ensaiando e, principalmente, liderando a bateria da Mocidade, Mestre André – mestre, por suas funções frente aos batuqueiros, e André, não se sabe bem porque – transmitiu-lhe características tão próprias que, em muitos desfiles, mesmo sendo sua escola a última a desfilar, milhares de pessoas esperavam, apenas para desfrutar o sabor de ver e ouvir a bateria, que jamais recebeu nota menor que 10.
Os historiadores Amaury Jório e Hiram Araujo contam como nasceu a “paradinha” da Mocidade, em seu primeiro desfile no Grupo 1, no Carnaval de 1959: “Na Avenida Rio Branco (que Mestre André) criou a parada quase total, deixando somente a caixa de guerra repicando. O povo que assistia ao desfile, calorosamente, aplaudiu, gritando ‘olé’”.
Em anos posteriores, a Mocidade, além da caixa de guerra, fazia soar separados ora a cuíca, ora os tamborins ou os reco-recos.
Até o final da vida, Mestre André comandou a Bateria Nota 10, que mesmo sem ele mantém o mesmo nível.
Quando no bairro de Padre Miguel, no Rio de Janeiro, nasceu o Independente Futebol Clube, em 1952, seus fundadores não Imaginavam que estavam criando o núcleo de uma das maiores escolas de samba da cidade.

O time ia bem, ganhava a maioria de seus jogos, tornava-se popular, mas com o passar do tempo e as rodas de samba que se armavam, depois das partidas de futebol, a rapaziada achou que já era hora de transformá-lo em escola de samba.
Foi assim que, três anos após a fundação do clube, a 10 de novembro de 1955, com as mesmas cores verde e branco do time de futebol, nasceu o Grêmio Recreativo Escola de Samba Mocidade Independente de Padre Miguel.
A comunidade de Padre Miguel uniu-se em volta da nova escola, que teve entre os pioneiros nomes como os de Sílvio Trindade, Renato Ferreira da Silva, Djalma Ferreira da Silva, Joaquim e Jorge Lopes, Garibaldi Faria Lima, Altamiro V. Menezes (o Cambalhota), Itamar de Oliveira, Sebastião (Tião) Marinho, Alfredo Briggs, Pavão, Saco, Mário Perini, Nonô, Noel, Helena e José Pereira da Silva, que o samba batizou como Mestre André, o mais famoso mestre de bateria da história de todas as escolas de samba.
Esses nomes – e outros mais – são reverenciados hoje como os que possibilitaram os primeiros passos da Mocidade Independente, no caminho que a tornaria uma das grandes representantes do samba carioca.
A escola fez seu desfile inaugural, de forma não-oficial e limitado ao bairro, mas o bem desenvolvido enredo “Navio Negreiro” levou-a ao primeiro lugar.
Em 1957, já desfilando na Praça Onze, a Mocidade Independente, com o enredo “Baile das Rosas”, obtém a quinta colocação.

Thatiana Pagung, rainha de bateria da Mocidade Independente
A figura de Mestre André, como um regente erudito, usando a batuta, em vez de apito, encantando com seus breques, as famosas “paradinhas” e inesperadas mudanças de andamento, ia se tornando conhecida.
Sua competência ganhava elogios e a bateria passava a ser atração complementar dos desfiles, como no carnaval de 1958, no desfile da Praça Onze, quando a Mocidade venceu e ganhou a promoção para o Grupo 1.
Em seu primeiro desfile no grupo das grandes, a Padre Miguel conquistou o quinto lugar com o enredo “Os Três Vultos Que Ficaram Na História”, conseguindo os prêmios de melhor mestre-sala e porta-bandeira e como era esperado – melhor diretor de bateria.
1959 foi o ano em que o carnaval conheceu a marca registrada da bateria da Mocidade, os famosos breques.
Durante alguns anos, a Mocidade viveu das performances de sua bateria, mantendo-se no grupo intermediário das escolas do Grupo 1, ou Grupo Especial, como veio a ser chamado algum tempo depois.
Situava-se entre o quinto e o oitavo lugares, até dar a arrancada que a elevaria para o nível das primeiras colocadas.

Roberto Dinamite e o vascaíno Andrezinho, ex-vocalista do grupo Molejo, coordenador da bateria da Mocidade e filho do lendário Mestre André
Mas antes houve uma dura injustiça, cometida no carnaval de 1970.
O cenógrafo Arlindo Rodrigues, famosos pelo trabalho desenvolvido na Acadêmicos do Salgueiro, foi convidado pela Padre Miguel.
De reconhecido bom gosto, preparou um carnaval belíssimo para o enredo “Festa do Divino”, e a Mocidade foi para o desfile com a garra, a disposição e o temperamento das grandes escolas de samba.
Harmonia, alegoria e fantasias, em perfeito acordo com o excelente samba, faziam a arquibancada gritar o tradicional “já ganhou” e o clima de vitória se instalar na escola, mas, surpreendentemente, o julgador de fantasias atribuiu nota 4 ao quesito, justo para o qual todos esperavam 10.
Com isso, a Mocidade perdeu o título, pois classificou-se em quinto lugar, quatro pontos abaixo da Acadêmicos do Salgueiro, a campeã.
Como a popularidade aumentava a cada ano, a Escola ia atraindo muitas figuras de renome.

Uma delas foi a cantora Elza Soares, que “puxou” o samba da Mocidade várias vezes nos desfiles. 
Autêntica componente, jamais cobrou cachê por suas participações.
Por outro lado, o patrono Castor de Andrade sempre contribuiu financeiramente para a montagem dos Carnavais.
As vitórias se iniciariam em 1990, com o enredo “Vira, Virou” e, em 1991, com “Chuê, Chuá, As Águas Vão Rolar”.
De lá para cá, até computadores a Mocidade usa nos desfiles, para melhorar a performance do enredo. 
A bateria continua perfeita, seguindo a filosofia inovadora de Mestre André, por conta de seu filho Andrezinho.

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