quarta-feira, 6 de abril de 2011

GRES Reino Unido da Liberdade - Carnaval 1989


Enredo: Mãe Zulmira, o Amanhecer de uma Raça

Ainda com o grito de “é campeã!” entalado na garganta, a auto-estima em baixa e os brios feridos, os meninos do Morro se reuniram no começo de abril de 1988, para discutir o enredo do carnaval do próximo ano.

Aquele seria o último carnaval da diretoria formada por Bosco Saraiva (presidente), Ricardo Cabral (vice), João Thomé (secretário), Nicéias Magalhães (tesoureiro), Ivan Oliveira (diretor de Comunicação), Osmir Medeiros (diretor de Cultura e Programação) e Jairo Beira-mar, Arnoldo Cabral e Eldo Coelho (diretores de Bateria). E antes de deixar os cargos, eles estavam dispostos a fazer bonito.

As discussões sobre os temas do novo enredo foram objetos de várias reuniões.

Naquele ano, se comemorava, no Brasil, o centenário da abolição da escravatura.

Os meninos do Morro resolveram juntar a fome com a vontade de comer: decidiram homenagear as venerandas Mãe Joana Gama e Mãe Zulmira, para descrever a epopéia dos negros africanos durante a colonização brasileira.

O tema escolhido, “Mãe Zulmira: o Amanhecer de uma Raça”, iria mostrar as negras raízes do Morro da Liberdade, que era motivo de orgulho da comunidade, e, ao mesmo tempo, referendar a contribuição negra para o próprio advento do samba e do carnaval.

O tema era muito interessante, do ponto de vista histórico e cultural.

Na época em que os portugueses começaram a colonização do Brasil, não existia mão-de-obra para a realização de trabalhos manuais.

Diante disso, eles procuraram usar o trabalho dos índios nas lavouras.

Entretanto, esta escravidão não pôde ser levada adiante, pois os religiosos se colocaram em defesa dos índios condenando sua escravidão.

Assim, os portugueses passaram a fazer o mesmo que os demais europeus daquela época.


Eles foram em busca de negros na África para submetê-los ao trabalho escravo em sua colônia.

Deu-se, assim, a entrada dos escravos no Brasil.

Os negros eram vendidos pelos seus sobas – chefes de tribos africanas – aos portugueses, e trazidos para o Brasil dentro dos porões dos navios negreiros.

Devido às péssimas condições deste meio de transporte, muitos deles morriam durante a viagem.

Após o desembarque, os escravos eram comprados por fazendeiros e senhores de engenho, que os tratavam de forma cruel e desumana.

Apesar desta prática odiosa ser considerada “normal” do ponto de vista da maioria, havia aqueles que eram contra este tipo de abuso.

Eram os abolicionistas, um grupo formado por literatos, religiosos, políticos e pessoas do povo, mas politicamente incapaz de impedir que a escravidão se prolongasse por quase 300 anos.

Os negros escravos que vieram para o Brasil saíram de vários pontos do continente africano: da costa ocidental, entre o Cabo Verde e o da Boa Esperança, da costa oriental, de Moçambique, e mesmo de algumas regiões do interior.

Por isto, possuíam os mais diversos estágios de civilização.


O grupo mais importante introduzido no Brasil foi o sudanês, que, dos mercados de Salvador, se espalhou por todo o Recôncavo.

Desses negros, os mais notáveis foram os iorubas ou nagôs e os geges, seguindo-se os minas.

Em semelhante estágio de cultura encontravam-se também dois grupos de origem berbere-etiópica e de influência muçulmana, os fulas e os mandês.

Mais atrasados do que o grupo sudanês estavam os dos grupos da cultura chamada banto: os angolas, os congos ou cabindas, os benguelas e os moçambiques.


Os bantos foram introduzidos em Pernambuco, de onde seguiram até Alagoas, no Rio de Janeiro, de onde se espalharam por Minas e São Paulo, e no Maranhão, atingindo daí o Grão-Pará.

Ainda no Rio de Janeiro e em Santa Catarina foram introduzidos os camundás, camundongos e os quiçamãs.

Além do senhor dos céus e deus supremo, Olorum, a religião dos iorubas introduziu no Brasil outras divindades ou orixás, entre os quais Xangô, deus dos raios e trovões, Ogum, deus da guerra, Iemanjá, deusa das águas, Oxóssi, deus dos caçadores e viajantes, Iansã, deusa dos ventos e das tempestades, Oxalá, o orixá dos orixás, Dadá, protetor das crianças, Ibeji, orixá dos gêmeos, e Exu ou Elegbará, o mensageiro dos orixás, que, às vezes, é confundido, erroneamente, com um espírito do mal.

O principal fator que manteve a escravidão por um longo período foi o econômico.

A economia do país contava somente com o trabalho escravo para realizar as tarefas de cultivo, nas plantações de cana de açúcar, algodão e café, nas extrações de metais nas minas gerais e em outras tão pesadas quanto estas. As providências para a libertação dos escravos deveriam ser tomadas lentamente.

A partir de 1870, a região Sul do Brasil passou a empregar assalariados brasileiros e imigrantes estrangeiros, principalmente italianos, alemães e japoneses.

No Norte, as usinas substituíram os primitivos engenhos, fato que permitiu a utilização de um número menor de escravos.

Já nas principais cidades, era grande o desejo do surgimento de indústrias.

Visando não causar prejuízo aos proprietários, o governo, pressionado pela Inglaterra, foi alcançando seus objetivos aos poucos.


O primeiro passo foi dado em 1850, com a extinção do tráfico negreiro.

Vinte anos mais tarde, foi declarada a Lei do Ventre-Livre (de 28 de setembro de 1871).

Esta lei tornava livre os filhos de escravos que nascessem a partir de sua promulgação.

Em 1885, foi aprovada a lei Saraiva-Cotegipe ou dos Sexagenários que beneficiava os negros de mais de 65 anos.

Mas foi somente em 13 de maio de 1888, através da Lei Áurea, que a liberdade total finalmente foi alcançada pelos negros no Brasil. Esta lei, assinada pela Princesa Isabel, abolia de vez a escravidão no país.

A partir deste enredo, os compositores Gilson Nogueira e Almeron compuseram um dos mais belos samba da história do GRES Reino Unido, que foi gravado no Rio de Janeiro, pelo puxador Grilo, da Escola de Samba Unidos da Ponte, e acabou fazendo sucesso em todo Brasil.

O samba-enredo da Reino Unido chegou a ser o segundo samba mais tocado nas rádios do Rio de Janeiro e também fez muito sucesso em um dos mais tradicionais bailes carnavalescos cariocas, o do Clube Scala, onde foi executado à exaustão pela bateria da Portela.

Até hoje, esse samba faz grande sucesso nas rodas de samba de Manaus e é sempre tocado nas quadras de todas as grandes escolas da cidade.



Samba-enredo: “Mãe Zulmira: o Amanhecer de uma Raça!”

Compositores: Gilson e Almeron

Ô ô um grito forte pelos ares ecoou
Meu santo é forte, eu brincava com chicote
Despertava a passarada no repique do tambor
E atravessei o mar
Com lágrimas nos olhos a rolar
Rezei o ritual oguniê
Pra receber as bênçãos de Oxalá
Fiz grandes artes, minhas raízes
Para o mundo vou mostrar as cicatrizes
Gosto de amar, não esqueço as oferendas,
Já sofri no cativeiro,
Fiz mistérios, criei lendas
E no canavial
Sangue e suor eu derramei
Saravá, Santo Divino
E no mercado do destino me encontrei
Olorum mandou Ogum
Fazer chuvas de flores pra Iemanjá
E falou pra Iansã
Baixar na Avenida pra reinar
Vem meu povo vem dançar
E coroar
O canto pobre que desponta como rei
Vem que o céu te ilumina
Volta pra Mina e escreve a tua lei
Não esconde essa riqueza
Que a beleza está na palma da tua mão
O meu boi é chama acesa
Vem ver Joana e o teu gongá do Maranhão
Axé, Mãe Preta dê felicidade
Em seu palácio mostre a liberdade
Me dê amor, carinho e proteção,
Eparrei é Mãe Zulmira,
O amanhecer desta nação!

Coube a Carlos Fernandes, o Shangai, entronizado no papel de carnavalesco da escola depois que Oswaldo Jardim retornou para o Rio de Janeiro, dar asas à imaginação e traduzir o samba-enredo em alegorias e fantasias dignas das tradições do Morro da Liberdade.

Quando veio pra Manaus, Shangai já possuía 16 anos de estrada como artista plástico, escultor, entalhador e gravador em couro.

Autodidata e dono de uma técnica própria, nova e possivelmente única no mundo, em se tratando de trabalho em couro, Shangai se dedicou de corpo e alma na confecção do enredo da escola.

Detentor de um currículo repleto de participações em exposições individuais e coletivas e trazendo em sua bagagem o aprendizado adquirido em suas passagens por diversas escolas de samba, entre as quais a Beija-Flor de Nilópolis, o artista plástico carioca não teve nenhum problema para se integrar aos meninos do Morro. Pelo contrário.

Ele tornou-se a mola propulsora da verdadeira revolução que aconteceu no barracão da escola, onde centenas de pessoas se revezaram para, praticamente, “suar sangue”.

Afinal de contas, que indescritível força será essa, que impulsiona as pessoas a superarem seus próprios limites, desconhecendo o cansaço, deixando de lado as desavenças, isolando-se da família e do mundo, abrindo mão do conforto e dos amigos?

Não há, certamente, aquele que ao presenciar pela primeira vez o ritmo de trabalho em um barracão de escola de samba não se tenha feito essa indagação.

O tênue equilíbrio entre a tensão e descontração, a visível fadiga nos rostos e o ânimo para concluir uma tarefa são apenas algumas das contradições encontradas por tanto quantos tenham a oportunidade de conhecer os bastidores de uma escola.

Loucos, dizem alguns. Heróis, dizem outros.

A verdade é que fazer uma lista com os adjetivos dados àqueles que soldam, pintam, cortam, esculpem, costuram, em suma, desempenham as dezenas de atividades inerentes à construção de um desfile carnavalesco seria até cansativo, pois a quantidade é enorme.

Pois naquele ano, a força que não deixava ninguém ficar parado no barracão do GRES Reino Unido da Liberdade tinha nome: o carnavalesco Shangai e seus dois braços direitos, Paulo Jorge e Mazinha.

Foram seis meses de trabalho ininterrupto envolvendo mais de 200 pessoas diuturnamente, que resultaram em oito carros alegóricos, três tripés e milhares de adereços para fantasias.

Entre os operários da alegria estavam Nego Dico, Nicéias, Boró, Sabazinho, Tingão e Tinguinha, Fidel, Lolô, Dona Nazaré (responsável pela xepa do dia a dia), Figuras Mau e Bom, Donalber, Paulo, Japiim, Roberto Dinamite, Sorriso, Chico Maciel, Vai-Vai, Zé Carlos, Tabosa, Waldomiro, Robô, Tibá, Paulo Vitor, Caimã, Ricardo Cabral, Cevê, Calama, Rossana e tantos outros.

Mas o trabalho não se restringiu ao barracão, extrapolou e foi à quadra da escola, aos colégios do bairro, às casas de inúmeras famílias.

Todos irmanados no objetivo de conquistar o primeiro título do carnaval amazonense para a comunidade.

Shangai dividiu o desfile em sete setores.

O primeiro setor, intitulado “África”, trazia a comissão de Frente “Guerreiros da Vida”, o abre-alas “Axé – A Bonanza Negra”, representando o bem, a força e a energia que vem da África, sendo que a Coroa do Reino, símbolo da escola, estava adornada por 11 orixás.

Seguiam-se as alas “Continente Negro”, alusiva aos portadores da base cultural, “Banzo” mostrando a saudade dos expatriados, o carro alegórico “África”, simbolizando o continente-mãe, e as alas “Brasil Negro” e “Sorriso Negro”, ambas fazendo alusão ao Oceano Atlântico.

A bateria estava fantasiada de Ogans, os músicos escolhidos pelos deuses.
O segundo setor foi intitulado de “Axé ao Sol do Novo Mundo”.

O carro alegórico de mesmo nome simbolizava o princípio do sincretismo cultural e da fusão racial.

Seguiam-se as alas “O Sol”, feita só de crianças, representando o amanhã, o florescer da vida, e “Axé”, que representava uma saudação à humanidade.

O terceiro setor, “Nobreza Negra”, trazia o primeiro casal de Mestre Sala e Porta Bandeira fantasiados como reis africanos.

O quarto carro alegórico, “Cabeças Coroadas”, era uma alusão às famílias reais africanas tornadas escravas no Brasil.

Seguiam-se as alas “Festa do Divino” e “Nobreza Negra”, ambas homenageando a realeza africana, o tripé “Um canto à liberdade” e a ala “Liberdade”, que homenageava Zumbi dos Palmares.

O quarto setor, “Casa de Mina”, trazia o segundo tripé, “Boi do Maranhão”, e as alas “Bumba Meu Boi” e “Mulher Rendeira”, ambas referências culturais às raízes de Mãe Joana Gama, seguidas das alas “Nação Negra” e “Joana Gama”, referência aos primeiros moradores do Morro da Liberdade.

O quinto setor, “Iniciação”, trazia o quinto carro alegórico, “Banho de Iansã”, simbolizando a purificação.

Seguiam-se as alas “Iaôs”, uma homenagem a todos os afoxés do Brasil, “Bruxos”, referência à magia negra, “Misticismo”, alusão ao sincretismo religioso, e o segundo casal de Mestre Sala e Porta Bandeira, fantasiados de orixás.

O sexto setor, “Oferendas”, trazia o sexto carro alegórico, “Ritual das Oferendas”, uma homenagem aos rituais do candomblé.

Seguiam-se as alas “Barca da Misericórdia” e “Trabalhando nas Minas”, simbolizando a oferenda do trabalho negro ao país, o terceiro tripé, “Mercado do Destino”, referência à transformação do ser humano em mercadoria e também a Ifá, dona da roda do destino, e as alas “Moenda”, sobre o trabalho nas lavouras, “Vendedores de Mercado”, sobre os trabalhadores de tabuleiros na cabeça, e “Baianas de Cheiro”, simbolizando a purificação de todas as raças.


O sétimo e último setor, “Ogans – O Canto dos Deuses”, trazia o sexto carro alegórico “Os Ogans de Iansã”, simbolizando a abertura das portas do Céu e de Manaus, sendo seguido pela ala “Show”, de mulatas e passistas, e pelas alas “Semente Viva”, homenagem à festa de São Sebastião, “Mãe do Morro”, homenagem a Santa Bárbara, o casal de Mestre Sala e Porta Bandeira mirim, a ala das Baianas, fantasiadas de Iansã, e o último carro, “Palácio Mágico de Mãe Zulmira”, trazendo a própria ialorixá em pessoa.

Com essa concepção de desfile magistral e a cidade toda cantando um dos sambas mais belos de todos os tempos não tinha mesmo pra ninguém.

A escola entrou na passarela às 6h hora da manhã, justamente quando estava raiando o sol de um novo dia.

Também foi nessa manhã que ecoou, pela primeira vez, o grito de guerra do presidente Bosco Saraiva, mais tarde transformado em tradição: “Vai com Deus, Reino Unido!”.

E a escola foi – feito uma onda gigante de 4 mil brincantes, embalada pelas vozes dos puxadores Tati do Reino, Almerom, Rock e Belel, numa empolgação que arrebatou a emoção do público e encharcou de beleza a avenida.

Aplaudida de pé, do começo ao fim do desfile, a escola saiu da Djalma Batista consagrada.

Os brincantes começaram a comemorar o título no mesmo dia, na quadra da escola.

Na quarta-feira, as notas dos jurados apenas confirmaram o que toda a imprensa e o público presente no desfile já haviam anunciado antecipadamente: o GRES Reino Unido da Liberdade era o campeão incontestável do carnaval daquele ano.

Os meninos do Morro haviam chegado lá.

6 comentários:

  1. CARNAVAL MARAVILHOSO E HISTÓRICO DE 1989 FOI SHOW E EU FIZ PARTE DESSA HISTÓRIA PARABÉNS MEU REINO 2011

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  2. queria ter vivido esse grande momento do carnaval

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  3. Alguém teria o vídeo do desfile de 1989, gostaria de assistir.

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  4. ESTE ANO DE 1989 FICOU PARA A HISTÓRIA DO CARNAVAL AMAZONENSE, POIS A REINO UNIDO DA LIBERDADE DESFILOU NA DJALMA BATISTA COM 6.000 COMPONENTES NUM DESFILE EMOCIONANTE E INESQUECÍVEL, NADA VISTO ANTES. UMA BATERIA INIGUALÁVEL EM QUE TODOS CANTAVAM O SAMBA DE ENREDO DO INÍCIO AO FIM. FOI UMA COISA AVASSALADORA REALMENTE O QUE ACONTECEU NAQUELE DESFILE.

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  5. ESTE ANO DE 1989 FICOU PARA A HISTÓRIA DO CARNAVAL AMAZONENSE, POIS A REINO UNIDO DA LIBERDADE DESFILOU NA DJALMA BATISTA COM 6.000 COMPONENTES NUM DESFILE EMOCIONANTE E INESQUECÍVEL, NADA VISTO ANTES. UMA BATERIA INIGUALÁVEL EM QUE TODOS CANTAVAM O SAMBA DE ENREDO DO INÍCIO AO FIM. FOI UMA COISA AVASSALADORA REALMENTE O QUE ACONTECEU NAQUELE DESFILE.

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