segunda-feira, 4 de abril de 2011

GRES Reino Unido da Liberdade - Carnaval 1997


Enredo: Se navegar é preciso, vou de Caravela!

Em busca do pentacampeonato, o GRES Reino Unido inspirou-se na história das navegações portuguesas e espanholas para contextualizar seu desfile de 1997.

Como a história era muito extensa e caberiam muitos carnavais para abordá-las, Bosco Saraiva e Gilson Nogueira, responsáveis pela elaboração do enredo, decidiram se fixar nas expedições que se seguiram tão logo o Tratado de Tordesilhas foi assinado por Portugal e Espanha.

– Nossa idéia era mostrar as expedições em busca do País de Canela, o país das mitológicas guerreiras Icamiabas, que ficava além de Quito, para as bandas do Oriente, fora do mundo incaico conquistado pelos espanhóis! –, relembra Bosco Saraiva.

Baseados nos relatos do capelão da expedição de Orellana, frei Gaspar de Carvajal, no livro “Descobrimento do Rio das Amazonas” e em outras referências literárias, os dois optaram por centralizar o enfoque sobre os viajantes que cruzaram pela primeira vez a vastidão dos rios da Amazônia e ajustaram as imagens e narrativas da época ao eixo central do enredo.

Nesse contexto, “Se navegar é preciso, vou de Caravela!” garimpava uma etapa característica da história das sociedades flutuantes, que antes de se voltar para a construção do império lusitano e hispânico d’além mar, a propagação da religião católica, a demonstração da valentia e coragem da raça supostamente superior à dos nativos e coisas semelhantes, fixava-se muitas vezes em coisas insignificantes na sua realidade ou até inconfessáveis.

O que interessa é que eram essas coisas que tantas vezes explicavam o sucesso ou fracasso de muitas expedições e, após a partida, caracterizariam a sociedade do navio flutuante – homens e coisas compondo, sob céus incertos e desconhecidos, um destino coletivo.


“Isto é claro – diziam os mareantes – que depois deste Cabo não há gente nem povoação alguma (...) e as correntes são tamanhas, que o navio que lá passe, jamais nunca poderá tornar”.

Assim o cronista Gomes Eanes de Zurare descreveu a apreensão com que os marujos, no início da década de 1430, se aproximavam dos limites meridionais do mundo deles: o Cabo Bojador, um monte de areia e pedra açoitado pelos ventos, no extremo oeste da África, na região hoje conhecida como Saara Ocidental.

Nas primeiras viagens ao Novo Mundo, esse sentimento de perplexidade também continuava sendo a tônica.

Um dos fundadores do GRES Reino Unido, o compositor Jorge Halen, mais conhecido como Chocolate, ficou entusiasmado com o novo enredo.

Conhecido pela fama de pé quente, cabeça fria e por ter uma felicidade enorme para compor, Chocolate começou a fazer sambas no Morro da Liberdade em 1983 e, três anos depois, ganhou seu primeiro carnaval com o samba-enredo “Eduardo Ribeiro: Coisas do Pensador”, quando a escola ainda estava no segundo grupo.

No início dos anos 90, Chocolate voltou a ver a Reino Unido defendendo um samba seu, “A paz vem do futuro”, que não chegou a ir para a passarela em 1991 porque naquele ano não houve desfile, mas que foi cantado alegremente pelas ruas do Morro da Liberdade.

Em 1994, ele emplacaria um novo samba, “Doce vida”, que deu à escola o vice-campeonato.

O gosto do segundo campeonato chegou em 1996, com “Relato de um certo Oriente”, inspirado na obra de mesmo nome do escritor Milton Hatoum.

Disposto a emplacar sua segunda vitória consecutiva, Chocolate, novamente em parceria com Paulinho de Carvalho, do Grupo Raça, elaborou um dos melhores sambas já produzidos pelos compositores da escola e, provavelmente, um dos mais animados da história do carnaval amazonense.

Quase quinze anos depois, o samba continua sendo cantado em todos os ensaios da Reino Unido e nas apresentações da bateria da escola em bailes de carnaval, graças ao refrão ganchudo – marca registrada da dupla Chocolate-Paulinho – e às paradinhas introduzidas na bateria da escola pelo Mestre Gordinho.

Aliás, é quase impossível encontrar algum folião amazonense, em qualquer escola de samba da cidade, que não conheça de cor e salteado esse refrão pegajoso.



Samba-enredo: Se navegar é preciso, vou de caravela

Compositores: Chocolate e Paulinho Carvalho

A Reino Unido arrepiou, arrepiou
E a galera explodiu, pegou geral,
Agora vem de caravela
Na avenida, agitando o carnaval!
Vamos fazer uma viagem
O rei mandou um novo mundo desbravar
Nesse mar de poesia
Raiando o dia, em Canela vou chegar
Posso até sentir o seu calor
Quero ver um novo amanhecer
Passarada em despedida ao luar
Belo cenário que me faz enlouquecer
Eu quero ouvir você dizer
De caravela eu vou, amor
Eu canto pra te ver, oh! minha inspiração
Reino é minha paixão
Bate bum bum, bate no peito
Cravo e canela, amor perfeito!
Bate bum bum, é vento norte
E você não pode parar, meu coração!
Você é meu sol, é meu guia,
E o lamento ecoa pelo ar
Cansado de tanta tristeza
Escravo de um sonho
Vou dar um tempo pra poder raciocinar
Na minha mente, o prazer de conquistar
A emoção já tomou conta da razão
Mulheres guerreiras ou alucinação
Amada lua, é seu o espelho prateado
Seu manto cobre este rio
“Amazonas” meu doce mar

Os ensaios da escola de samba começaram a atrair uma quantidade indescritível de brincantes, que chegavam a ocupar as ruas na área externa da quadra.


Se para o público, a arte é, em síntese, um objeto de deleite, de prazer, para o artista, acima de tudo, é uma opção de vida.

Foi graças a isso que a Reino Unido da Liberdade pôde mostrar mais um desfile assinado por Chico Cardoso.


Ator, autor e diretor premiado de teatro, bailarino, figurinista, aderecista e coordenador da Comissão de Artes do bumbá Garantido, de Parintins, em um certo momento de sua vida Chico Cardoso topou o desafio de colocar toda essa experiência e conhecimento a serviço do samba.

Ele assumiu, na metade do caminho, a responsabilidade de redimensionar e concluir o projeto iniciado pelo caranavalesco Shangai, em 1990, com o tema “Vem a mais de mil”, em que fez uma estréia com o pé direito, conquistando o título daquele ano.

Ele voltou em 1993, para trabalhar o tema “Doce Vida”, com o qual a escola obteve o segundo lugar.

Presente nos carnavais da Reino Unido desde então, criando, orientando e executando determinados trabalhos, chegou com a escola a mais dois primeiros lugares, em 95 e 96.

Chico Cardoso se fez, com isso, mais um menino do Morro e impôs seu nome como referência no carnaval amazonense.

Foi dele, de sua usina de idéias, que saiu o espetáculo “Se navegar é preciso, vou de Caravela!”, que a Reino Unido utilizou para recontar, à sua maneira, uma das mais belas sagas amazônicas, empreendida por Francisco Orellana e seus homens em nome da bravura, da busca pelo novo, da ânsia de conquista e dominação, para gáudio da coroa espanhola.

Chico Cardoso dividiu o desfile em três partes, cada uma delas abordando um fato específico sobre a viagem dos espanhóis ao País das Amazonas.

Os 5.200 brincantes foram distribuídos em 20 alas, seis carros alegóricos e 438 destaques, entre eles a vereadora Ana Nascimento e o colunista Julio Ventilari.

O principal destaque era Arlindo Jr., com a fantasia de “Francisco Orellana”.

A “Ala das Amazonas” era formada por 14 bailarinas do Grupo de Dança do Ventre do Sesc, coreografadas por Maíse Souto.

A “Ala das Caravelas” era formada por 300 crianças.

Na primeira parte do desfile, a escola apresentava o Tratado das Tordesilhas, assinado entre Portugal e Espanha, que traçava uma linha imaginária de pólo a pólo e garantia à Espanha o direito de explorar a maior parte das terras no ocidente do Novo Mundo.

Pensando na expansão ultramarina do império espanhol, o rei da Espanha, Carlos V, autoriza a expedição de Francisco Pizarro às novas terras da coroa.

Em 1532, a expedição parte em busca de ouro e outras riquezas existentes no Peru, na época um território pertencente aos incas.

A Comissão de Frente trazia os “Conquistadores do Novo Mundo”, uma referência aos primeiros viajantes espanhóis, que partiam em seus navios sem a certeza de chegar ao porto de destino.

O carro abre-alas, “A Corte Espanhola”, representava o início da história, quando é acordado entre Portugal e Espanha a repartição das terras descobertas no Novo Mundo, através do Tratado de Tordesilhas.

Em seguida, vinha a Ala da Nobreza (representando os nobres da corte de Carlos V), a Ala dos Nautas (navegadores que antecederam a descoberta da Nova Andaluzia) e a Ala das Baianas, vestidas de espanholas, para representar os conquistadores do Novo Mundo.

O segundo carro alegórico, “Expedição da América”, mostrava Francisco Pizarro recebendo de Carlos V a autorização para conquistar o Novo Mundo e, sobretudo, assegurar as riquezas descobertas para a Espanha.

Ele era secundado pela Ala da Bússola (representando a orientação para as empresas da expedição), Ala dos Mapas (onde estava descrita a trilha de navegação para o Novo Mundo) e a Ala das Caravelas, em que 300 crianças simbolizavam as velas abertas ao sabor do vento, enquanto as naus partiam rumo ao novo continente.

A segunda parte do desfile mostrava Francisco Pizarro, já governador e senhor absoluto das terras incas, determinando que seu irmão, Gonzalo Pizarro, partisse em busca do País da Canela, para conquistar aquelas terras em nome do rei da Espanha.

O terceiro carro alegórico, “País da Canela”, mostrava o início da expedição de Gonzalo Pizarro.

Partindo de Quito, em 1541, numa expedição com 150 soldados, 4 mil índios e 3 mil animais de tropa, inclusive com alpacas e lhamas, Gonzalo consegui transpassar os Andes por dificílimos caminhos chegando às cabeceiras do Rio Amazonas.

As dificuldades encontradas fizeram com que ordenasse a Francisco Orellana que desse prosseguimento ao projeto, num barco lá mesmo construído.

A exploração continuou seu curso até que atingiu a desembocadura do grande rio no Atlântico, em 1542, depois de ter percorrido seus 5.825 km. De lá, Orellana continuou até a Espanha.

A bateria da escola vinha fantasiada de guerreiros incas, os adoradores do sol, que foram duramente massacrados durante a conquista espanhola.

Seguia-se a Ala dos Incas (representando a cultura dos povos que habitavam as terras conquistadas), a Ala do Sol (simbolizando o deus Inti, cultuado pelos incas) e a Ala dos Nativos (representando os povos nativos que viviam sob o domínio inca, habitando a cordilheira dos Andes desde o sul da Colômbia até o norte de Chile e Argentina, passando por Equador, Peru e Bolívia).

O quarto carro, “Caravelas de Orellana”, mostrava a separação de Orellana da expedição de Gonzalo Pizarro para buscar mantimentos de forma a suprir as necessidades impostas pela fome e doenças de seus companheiros.

Era o início de uma incrível aventura pela Amazônia brasileira em nome do rei de Espanha.

Na seqüência vinha a Ala Zimaco (o primeiro povoado em que aportou a expedição), Ala Hylea (os espanhóis conquistadores das novas terras) e a Ala dos Conquistados (índios que pereceram durante as lutas com os espanhóis).

As fantasias do primeiro casal de Mestre-Sala e Porta-Bandeira traduziam o choque cultural decorrente do encontro dos dois continentes, o Novo e o Velho.

O Mestre-Sala representava todos os povos indígenas do continente americano que foram subjugados pelos conquistadores e tiveram suas culturas dizimadas.

A Porta-Bandeira representava os povos europeus que, em nome do rei e da fé cristã, tomaram de assalto todo o continente americano recém-descoberto.

Eles eram secundados pela Ala da Resistência (índios que resistiram e lutaram contra conquistadores), Ala da Aculturação (índios conduzidos à nova fé e assimilando novos valores) e Ala do Continente Índio (mostrando um continente habitado por milhares de etnias indígenas).

Na terceira e última parte do desfile, a escola mostrava Francisco Orellana avançando pela águas corrente do rio Amazonas, passando por vários povoados, reconhecendo os domínios da terra pelos índios e sofrendo as mais terríveis conseqüências por sua ousadia.

Deve-se a Orellana a denominação de Amazonas ao rio até então conhecido como Mar Dulce (“mar doce”).

Deparando-se, nas margens da foz do rio Nhamundá, com um grupo de belicosas índias que acompanhavam os homens em combate, chamou-as de amazonas, confundindo-as com as antigas guerreiras da mitologia grega.

Ao retornar à Espanha, Orellana conseguiu ser nomeado governador da Nova Andaluzia, organizando uma nova sortida que o levou ao naufrágio e morte a bordo de um bergantim, provavelmente nas proximidades de Macapá, em 1550.

O quinto carro alegórico, “O Reino das Amazonas”, era uma representação do relato de Frei Gaspar de Carvajal, quando ele se referiu às índias brancas e altas, que pelejavam como verdadeiros guerreiros e eram hábeis remadoras.

Daí ser esta uma lenda difundida largamente entre os povos da Amazônia e que acabou batizando o nosso próprio estado.

Na seqüência vinha a Ala Povos do Rio Negro (“Se chovessem adagas, certamente não cairia uma só ao chão, tal é o volume de nativos nestas novas terras”, garantiu Frei Gaspar de Carvajal), a Ala Atlântico (os mares avistados pela expedição de Orellana, pondo fim à angústia e ao desespero de seus companheiros) e a Ala Andaluzia (mulatas e passistas da ala show).

O sexto e último carro alegórico, “Nova Andaluzia”, representava a Amazônia espanhola, batizada com este nome por Carlos V, que acreditava ter conquistado um continente cheio de riquezas.

O fato não se concretizou, já que as novas terras acabaram se transformando em possessão lusitana, mas até hoje a Amazônia brasileira ainda desperta a cobiça de muitos países.

Encerrando o desfile, vinha a tradicional Ala Amigos do Morro, com a sua contagiante alegria.

Em nível de fundamento de desfile de escola de samba, a Reino Unido foi a escola tecnicamente mais perfeita que passou pelo Sambódromo.

O samba deixou a platéia completamente embasbacada, com seu refrão grudento sendo cantado por todo mundo que estava presente nas arquibancadas.

A bateria ganhou uma cadência sutil e abusou das “paradinhas”, arrancando aplausos até mesmo dos jurados.

A Reino Unido desfilou tranqüilamente, de forma planejada e organizada, sem atropelos.

O enredo, desenvolvido com correção e estilo pelo carnavalesco Chico Cardoso, não poderia ter sido mais bem trabalhado.

As alegorias e as fantasias estavam perfeitas, criando uma absoluta sintonia no conjunto artístico.

Em suma, a escola sobrou na avenida e conquistou, com méritos, o título de campeã do carnaval daquele ano.

2 comentários:

  1. Eu estava lá no sambodromo e este samba levantou todo o sambodromo, foi incrível, realmente esse samba náo sai da cabeça.

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  2. Também estive presente, primeiro ano no Sambodromo, e fui presenteado como uma apresentação divina por parte da Reino Unido. !!!

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