segunda-feira, 4 de abril de 2011

GRES Reino Unido da Liberdade - Carnaval 2002

Enredo: Divina Cachoeira

Na nova eleição realizada na escola, em maio de 2001, foram eleitos o empresário José das Graças Picanço de Souza (presidente) e o engenheiro Carlos Alberto do Nascimento e Silva (vice-presidente), para um mandato de dois anos.

Zé Picanço e Carlão, com o respaldo do carnavalesco Chico Cardoso, resolvem partir para o experimentalismo e dar um tratamento de choque na concepção vigente dos desfiles das escolas de samba.

– Pela nossa experiência, os foliões, que são a razão da existência das escolas de samba, estão dando sinais muito claros de que não querem mais se vestir de papelão, TNT e arame! – analisava o presidente Zé Picanço. “Eles preferem esperar pela camisa da Ala dos Convidados e até pagam mais caro por ela. A fantasia, portanto, deixou de ser uma peça alegórica dentro do desfile. Tornou-se tão inconveniente, previsível e pobre, que boa parte de algumas alas acaba ficando de fora do desfile por não encontrarem compradores. Isso gera prejuízo para a escola, para o presidente da ala e, principalmente, para o nosso carnaval.”

– Abandonar os padrões estéticos tradicionais das fantasias de ala, seu volume exagerado, seu peso insuportável e seu valor inacessível para muitos brincantes, é como retornar à marca inicial de uma corrida em busca de mais conforto, cor e liberdade para os componentes do nosso desfile! –, explicou Chico Cardoso.

O enredo escolhido pela Comissão de Carnaval, “Divina Cachoeira”, seria uma abordagem sobre Presidente Figueiredo e suas fantásticas cachoeiras, mas sem o ranço de uma visitação histórica sobre a fundação e o desenvolvimento do município. Pelo contrário.

O enredo propunha um passeio antropológico e mítico envolvendo aquelas cercanias, cotejando a eminente extinção do Galo-da-Serra, da população Waimiri-Atroari e do próprio meio ambiente.

– Nós acreditamos que a universalidade dos temas abordados em qualquer manifestação popular, principalmente na arte e na cultura, só alcança plenitude quando investigada profundamente em suas raízes regionais! –, sentenciou Carlão. “Por conta disso, nosso projeto foi elaborado a partir de considerações que nos serviram como diagnóstico para a indicação de uma nova proposta estética que sustentará nosso desfile”.


Alfredo Lara, Chico Cardoso e Zé Picanço

Essa nova proposta estética teria como princípio a evocação das raças responsáveis pela formação cultural do município e do País, por meio da tríade Iara, Oxum e Netuno, deuses das águas na cosmovisão dos índios, negros e brancos, respectivamente.

A grande aliada dessa proposta seria a própria Natureza, que generosamente propicia cenários magníficos para serem usados livremente em uma narrativa poética.

O resultado final esperado seria uma viagem onírica, mágica e criativa.

E que viagem!, essa que estava contida no enredo. Senão, vejamos:

Numa noite de plenilúnio, todos os seres da floresta ouviram um canto diferente, ecoando como um lamento por todos os arredores da Amazônia.


Era o lamento de um raro animal, o Galo-da-Serra, à beira de uma grande cachoeira.

Desesperado e cantando muito alto para acordar os deuses das águas, o Galo iria pedir a eles proteção, pois sua espécie estava ameaçada de extinção.

Então, do fundo do rio surge uma mulher-peixe, Iara, que cantando suavemente, atrai o Galo em sua direção.

Num sopro mágico, ela chama os índios Waimiri-Atroari, que, às pressas, chegam às margens da cachoeira sem saber do que se passa.

A Mãe D’água apanha o Galo nas mãos e mostra-o aos índios, dizendo a eles que o animal agora está sob sua proteção, e qualquer um que lhe fizer mal será severamente punido.

Dançando e cantando, os índios iniciam o ritual, e nele contam à Mãe D’água que conhecem muito bem aquele que faz mal a todas as espécies da Amazônia: o homem da cidade.

Ela faz o Galo voltar à margem do rio e, com um canto ensurdecedor, chama para a cachoeira a deusa negra Oxum, e, também, Netuno, o deus dos mares, para juntos encantarem o animal, preservando sua existência, e criarem naquele lugar uma cidade que possa viver em harmonia com a Natureza.


Oxum, a deusa negra, foi a primeira a se levantar do meio das águas e caminhar na direção de Iara.

As duas envolvem-se numa dança mágica, multiplicando as águas escuras do lugar, e só param de dançar quando o Galo oferece à deusa negra, como presente, sua própria crista, um chumaço de penas douradas, que ela transforma imediatamente em um belo leque encantado.

Oxum abraça o animal com carinho e promete lhe ajudar. Restaura as penas de sua crista e bate seu leque na água, provocando um banzeiro medonho, que arrasta as águas para várias direções.

A luz da lua fica mais intensa, ainda, quando surge, gigantesco e prateado, o magnífico deus Netuno, em todo o seu esplendor.


Ele crava seu tridente encantado no solo e gira em torno de si mesmo, provocando um redemoinho enorme, envolvendo-se na dança de Iara e Oxum.

Muitas cachoeiras eclodem por todos os lados. Repentinamente, tudo volta a se acalmar.

Reunidos ali, na mais bela cachoeira do lugar, os deuses encantam o Galo e fazem surgir muitos outros de sua espécie.

Naquele instante, uma cidade mágica começa a brotar do chão. Nela, o progresso e a Natureza irão caminhar juntos, posto que está sendo abençoada pelos deuses.


Os índios Waimiri-Atroari, para agradecer, dançam e cantam à luz do sol, louvando a vida, a generosidade e a proteção dos Deuses.

Numa grande festa, oferecem a eles a fruta mágica, o Cupuaçu, em forma de doces e bebidas.

Essas festas, a do Cupuaçu e a do Sol, vão repetir-se por todos os anos, até o fim dos tempos.

O nome da cidade encantada deveria lembrar a bravura dos homens da região. Por isso ela hoje é chamada de Presidente Figueiredo.

Para elaborar um samba-enredo capaz de narrar toda essa odisséia, os compositores da escola trabalharam em regime de mutirão.

O resultado foi uma letra quilométrica, mas com uma belíssima melodia, com direito a batida funk e “paradinhas” inacreditáveis.



Samba-enredo: Divina Cachoeira

Compositores: Velha Guarda do Morro, Ivan Mendonça, Madureira e Jacir Guimarães

No balanço das águas, chuê, chuá,
Em divinas cachoeiras vou me banhar
O meu Reino é ousadia e emoção
Do meu corpo jorram águas
Fonte de renovação
Lua cheia
Os seres da floresta ouviram um canto
Ecoou
Como um lamento se espalhou por toda mata
Despertam os deuses numa triste oração
O Galo-da-Serra voou
Por toda terra, pedindo proteção,
O homem e seu instinto animal,
Fere a fauna, mata a flora,
Espalhando a devastação
Num sopro Iara ordenou ao povo Atroari
Para lutar contra o mal
Em ritual resistir
Oxum, a deusa negra emergiu
Dançaram, contemplando o luar
Das plumas, o arco-íris que surgiu
Louvando a vida e benzendo o lugar
Bate o tambor que os deuses vão salvar o animal
Bate o tambor que o Morro vai mudar o carnaval
Bate no peito que a resistência mora em mim
E o samba não tem fim
Oh, Lua! Oh, Lua, prateia esses versos
Netuno oferece o clarão do seu olhar
Provoca seu encanto
Trazendo o pôr-do-sol
Cachoeiras e cascatas e o sublime arrebol
Pura magia, o meu samba, o meu enredo
É terra linda, Presidente Figueiredo
É festa do sol, do cupuaçu
Bebe o vinho, prova o doce
É verão tem céu azul
O meu cantar tem sabor de liberdade
É a verde-e-branco apaixonando a cidade!


As inovações não paravam no samba-enredo quilométrico, tão longo quanto um dia de fome.

Coube ao carnavalesco Chico Cardoso explicar a mudança radical adotada pela escola no quesito fantasia:

– Nossas fantasias são agora indumentárias do cotidiano, projetadas num universo onírico, delirante e orgiástico. Por conta disso, a camiseta e a bermuda do dia-a-dia transformam-se numa pele colorida, estampada de acordo com o enredo proposto. Ao contrário de um simples bloco carnavalesco, empobrecido e acanhado, a Reino Unido estará enriquecida com cores vibrantes e uma enorme variação de estampas, cuidadosamente desenhadas, para corresponder a todos os detalhes do enredo!

E quanto aos carros alegóricos? Chico Cardoso também tinha uma explicação convincente:

– Nesse desfile, nós deixaremos de ver as alegorias como divisão de setor, panteão de destaques, para transformá-las em cenários de uma história real ou mesmo no ambiente de um sonho mágico. Entre alegorias e alas não haverá divisórias, mas um matiz espetacular. Como se um gigantesco cordão humano fosse, efetivamente, a base da alegoria. E tudo isso sustentado por um samba milimetricamente ajustado ao enredo e à proposta de mudança, para que o resultado final seja igual a uma ópera bufa e carnavalizada.

Última escola a entrar no Sambódromo, a Reino Unido começou a desfilar às 7h30 de domingo, com um atraso de três horas.

Com a polêmica gerada pela mudança das fantasias, milhares de pessoas permaneceram nas arquibancadas para conferir se a escola iria mesmo mudar o carnaval de Manaus.

A comissão de frente, com 13 dançarinos do Ballet Folclórico do Amazonas e da comunidade do Morro da Liberdade, representava os seres da floresta e o Galo-da-Serra.

O carro abre-alas, “Santuário Ecológico”, trazia como destaques a jornalista e apresentadora de televisão Baby Rizzato, o colunista social Júlio Ventilari e o promoter Fernando Salignac.

Na seqüência vinham as alas “Natureza”, “Cachoeira das Orquídeas”, “Cachoeira da Onça Pintada” e “Corredeira do Urubuí”.

O primeiro carro alegórico, “Iara, a Mãe D’água Indígena”, simbolizava o universo mítico das nações indígenas.

Na seqüência vinham as alas “Waimiri-Atroari”, “Ritual indígena”, “Caverna de Maroaga” e “Cachoeira das Araras”.

O segundo carro, “Oxum, a Deusa Negra”, simbolizando a presença da cultura negra na região, era seguido pelas alas “Reverência aos Orixás”, “Oxum Maré” (formada pela Ala das Baianas), “Encantados” e “Mitologia”.

O 1º casal de Mestre-Sala e Porta-Bandeira estavam fantasiados de “Santuário Ecológico”, expressando a generosidade da natureza com Presidente Figueiredo.

Logo em seguida, vinham as alas “Uatumã”, “Maravilhas” (formada pelos passistas da Ala Show), “Sítio Arqueológico” e “Rio-Mar”.

O terceiro carro alegórico, “Netuno, o deus branco dos mares”, simbolizava a presença do homem branco na região.

Na seqüência, vinham as alas “Espíritos da Floresta”, “Pitinga”, “Balbina”, “Festa do Sol”, “Festa do Cupuaçu” e “Presidente Figueiredo”.

O desfile era encerrado com um quarto carro alegórico, “Presidente Figueiredo – um novo continente cultural”.

Nesse carro, desfilaram o prefeito Romeiro Mendonça e seu secretariado, que foi uma forma de a escola agradecer o apoio recebido e parabenizá-los pelo trabalho ecológico que estavam realizando no município.

No total, 6 mil brincantes, distribuídos em 22 alas, invadiram a avenida, trajando uma espécie de tururis (ou abadás) multicoloridos.

O certo é que ousadia tem limites e a nova modalidade de fantasia apresentada pela Reino Unido causou muita polêmica.

Teve gente que detestou:

– Me senti participando do Carnaboi. Isso não é carnaval! – detonou a universitária Sabrina Campos. “Aqui em Manaus é muito comum se fazer eventos com esse tipo de vestimenta. As pessoas esperam o ano inteiro para usar plumas, paetês e adereços no carnaval. Pra que mudar?”

Mas também teve gente que aprovou:

– Gostei muito. Ficou bem mais animado e colorido! – disse o autônomo Francisco Paiva. “Em outros desfiles, dependendo da fantasia, eu ficava ‘acabado’ no final do desfile. Essa nova fantasia é mais leve e me deu mais oportunidade de pular e brincar na avenida.”

Antes de começar o desfile, o vice-presidente Carlão avisou aos jornalistas que não queria mais falar sobre as fantasias da Reino Unido.

– Vamos falar sobre a beleza e o sucesso do nosso carnaval, que, com certeza, vai fazer história, pois não se vende 6 mil fantasias em uma semana se não tiver caído no gosto dos foliões. Esta é uma experiência inovadora que vai dar certo! – desabafou.


Infelizmente, os jurados oficiais não levaram muita fé na padronização das fantasias adotada pelos meninos do Morro.

A Reino Unido acabou em 4º lugar, empatada com a Sem Compromisso.

Em primeiro lugar ficou a Vitória Régia, em segundo a Aparecida e em terceiro a Grande Família.

Abalado pelas críticas recebidas dos brincantes, que atribuíram o fracasso da Reino Unido à concepção extremamente inovadora e experimental colocada em prática durante o desfile, o carnavalesco Chico Cardoso abandonou a escola, após 13 anos de trabalho e cinco títulos.

Responsável pela introdução da batida funk e das paradinhas, Iron Maciel, que há 10 anos atuava como mestre de bateria da Reino Unido, também picou a mula.

Os dois se transferiram de malas e cuias para o GRES Sem Compromisso, esperando ajudar a escola a quebrar um jejum de 17 anos sem conquistar títulos.

Os meninos do Morro não entenderam nada.

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